Todos os poemas
A minha mãe não distinguia géneros e muitas das minhas memórias do fim da infância e princípio da adolescência são na cozinha, a dividir tarefas com um irmão que se estava a transformar num rapaz
A dona Celina era, ao mesmo tempo e quase na mesma medida, uma mãe moderna e uma senhora muito austera, feita num molde antigo. E, por isso, o meu irmão e eu crescemos com a ideia de que não havia diferenças entre meninos e meninas e que ambos podíamos estudar, lavar a loiça, limpar o chão e fazer recados. A minha mãe não distinguia géneros e muitas das minhas memórias do fim da infância e princípio da adolescência são na cozinha, a dividir tarefas com um irmão que se estava a transformar num rapaz.
Os três anos que nos separam nunca foram tão evidentes. Depois de se queixar de dores nos ossos, o meu irmão ficou mais alto, mudou de voz e a cabeça encheu-se de caracóis e vê-lo, sentado à cabeceira da mesa verde de fórmica, era como olhar uma nova versão do meu pai. O rapazinho que subia às ameixeiras e caçava lagartixas, a mesma pessoa que eu tinha seguido aos tropeções pela fazenda do meu avô todos os verões da minha existência, estava prestes a ter amigos além dos vizinhos, a ir a festas nas discotecas e passar noites acampado na serra, onde o luar e as estrelas eram mais bonitos.
E mais depressa do que eu estava preparada para ver e perceber, a minha mãe, sempre tão preocupada com tudo, decidiu abrir a porta ao seu menino e ele foi. Primeiro para o grupo de campismo, depois para o lugar para onde vão todos os rapazes e raparigas entre os 12 e os 16 anos. Eu fiquei no mesmo lugar, na casa do Laranjal, debaixo da asa da mãe, do pai e das tias. Já não era uma criança e ainda não era uma rapariga e nada foi mais solitário do que crescer, que às meninas não se permitiam tantas liberdades.
O molde antigo de onde a minha mãe saiu era mais forte do que a senhora moderna que nos queria com estudos e não via diferenças na hora de dividir tarefas depois do almoço. Eu teria de me contentar com aquela redoma, com todos os cuidados que me protegiam dos males do mundo, das más intenções sem outro remédio senão assistir de longe e ouvir as conversas das miúdas da escola no intervalo ou do meu irmão, à hora do almoço que, por essa altura, era quem que trazia as modas, foi o primeiro a usar gel no cabelo e falar-me do cinema de autor que passava no Cine Fórum.
Lembro-me que teve uma faca de mato e um chapéu igualzinho ao do Indiana Jones e que, um dia sem aviso, começou a escrever poesia e declarou que ia ser escritor de livros, só lhe faltava a história. Antes disso, escandalizou as tias e a mãe ao garantir que Deus não existia pelo que cessava as idas à missa e à igreja, que era o que faziam todos os ateus. A decisão rendeu discussões durante meses à hora do almoço, mas umas quantas brigas e outros tantos amuos acabaram por sarar os desentendimentos.
O mais importante não tinha mudado. A adolescência devolveu-nos o Duarte, com o mesmo coração e o mesmo sorriso, tão cúmplice como antes, que ia ao cinema e ao teatro, às vezes, só por saber que eu queria e gostava muito. E partilhava planos, ideias e todos os poemas que escrevia em cadernos e na máquina de escrever como se fosse já um escritor a sério. A minha mãe achava que era; eu nunca tive dúvidas.