Ataque aumenta antiamericanismo entre iranianos
Uma especialista em política do Médio Oriente considerou, ontem, que os bombardeamentos indiscriminados a escolas e à indústria petrolífera iraniana estão a provocar um crescente antiamericanismo entre cidadãos do Irão.
"Estamos a assistir a um aumento do antiamericanismo: destruir o ambiente e matar crianças não era a ajuda que os iranianos esperavam de [o Presidente norte-american, Donald] Trump, e estão a virar-se contra os Estados Unidos de forma muito visceral e vocal, o que está a criar uma enorme divisão entre a diáspora e aqueles que estão dentro do país", afirmou a académica Roxane Farmanfarmaian, num 'webinar' sobre o conflito organizado pelo centro de estudos Royal United Services Institute.
Além do alegado bombardeamento de uma escola em Minab, no sul do Irão, no qual terão morrido mais de 150 pessoas em 28 de fevereiro, primeiro dia da guerra, têm sido destruídos muitos edifícios públicos, como hospitais, esquadras de polícia, edifícios governamentais, estádios desportivos, referiu a professora da Universidade de Cambridge.
Outro motivo de descontentamento tem sido a destruição de instalações ligadas à indústria petrolífera nos arredores de Teerão e as respetivas consequências ambientais.
"O céu sobre a cidade está negro e, literalmente, há uma chuva de petróleo por toda a cidade. Isso está a contaminar o lençol freático. Há gotículas negras e cinzas de petróleo bruto a cair sobre os carros. Vi várias fotos enviadas por pessoas que conheço das ruas do Irão. As calçadas estão pretas e a vegetação está coberta. E as pessoas estão extremamente preocupadas com a sua saúde e a possibilidade de usar a água, e cada vez mais isto está a ser descrito como uma nova forma de guerra química", afirmou.
Os ataques indiscriminados, que também têm atingido figuras da oposição, salientou Farmanfarmaian, "indicam às pessoas dentro do Irão que o objetivo não é realmente a mudança de regime, mas sim desmembrar o país e a capacidade de funcionar".
Farmanfarmaian observou que a nomeação como novo líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, não causou deserções no governo ou divisões, o que mostra que "o regime é muito mais sólido do que muitas pessoas pensavam".
"É improvável haver uma mudança de regime devido à estrutura atual do governo", afirmou, cenário que poderá levar a um conflito mais prolongado do que o desejado pelos Estados Unidos e por Israel.
O antigo embaixador britânico no Irão Simon Gass observou ser "mais provável que os Estados Unidos tenham de aceitar um resultado que não seja uma mudança de regime na esperança de que as consequências do conflito - a economia do Irão é o verdadeiro ponto fraco - possam causar uma mudança de regime a um prazo um pouco mais longo".
As forças iranianas, disse o diplomata, "ainda têm 'bunkers' substanciais, muito reforçados e capacidades profundamente enterradas nas montanhas de Zagros" e, avisou, "embora militarmente estejam em desvantagem, não estão fora de combate".
"O objetivo do Irão é a sobrevivência do regime" sem se render aos Estados Unidos, sublinhou.
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão, que ripostou contra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.
Incidentes com projéteis iranianos foram também registados em Chipre, na Turquia e no Azerbaijão.
Desde o início do conflito, foram contabilizados mais de mil mortos, na maioria iranianos, entre os quais Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica desde 1989.