Voto em branco ou nulo “vale zero”?
Apesar de não influenciarem a eleição de candidatos, os votos em branco e nulos são contabilizados nos resultados oficiais e funcionam como indicador de participação e protesto eleitoral.
A notícia publicada ontem na página digital do DIÁRIO – dnoticias.pt, intitulada “Posso votar em branco ou nulo”, que reportava declarações de Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional e do PSD Madeira, sobre a segunda volta das eleições presidenciais deste domingo, disputadas por António José Seguro e André Ventura, gerou intenso debate nas redes sociais.
“Posso votar em branco ou nulo”
Albuquerque reafirma que não apoia nenhum candidato presidencial
Orlando Drumond , 05 Fevereiro 2026 - 12:19
Alguns leitores interpretaram de forma literal o impacto dos votos em branco e nulos. Um deles, Lourenço Araújo, comentou: “Voto em branco ou nulo não conta para resultados. Só os votos válidos elegem. Na prática: vale zero.” Mas será esta afirmação correcta?
Em Portugal, apenas os votos válidos determinam directamente quem é eleito. Os votos em branco e nulos não entram na contagem para a atribuição de mandatos nem para a eleição de um candidato, pelo que, do ponto de vista estritamente eleitoral, não influenciam o resultado final.
Ainda assim, votos em branco e nulos são contabilizados oficialmente e constam discriminados nos boletins finais e nas estatísticas da participação eleitoral. Por isso, têm valor informativo e simbólico, permitindo medir níveis de insatisfação, protesto ou ausência de identificação com as opções apresentadas, mesmo que não elejam ninguém.
Exemplo prático: numa eleição com 100 mil votantes, se forem registados 10 mil votos em branco e 5 mil votos nulos, apenas os 85 mil votos válidos contam para eleger o candidato. Ainda assim, os votos em branco e nulos aparecem nos resultados oficiais, permitindo análises sobre o comportamento eleitoral e o grau de contestação do eleitorado.
É importante distinguir abstenção de votos em branco ou nulos. Enquanto a abstenção significa que o eleitor não participou, os votos em branco e nulos traduzem uma participação activa, embora sem escolha válida, sendo frequentemente interpretados como uma forma de expressão política.
Nos últimos anos, várias figuras públicas, incluindo o antigo presidente da Câmara do Porto e do PSD, Rui Rio, têm defendido que o voto em branco constitui uma opção legítima, tal como o voto nulo. Na prática, apenas os votos válidos elegem, mas ignorar completamente os brancos e nulos simplifica a realidade e desconsidera a função simbólica e analítica destes votos.
Perante os argumentos apresentados, concluímos que é imprecisa a afirmação de que votar em branco ou nulo não vale nada, pois, embora não elejam candidatos, esses votos são oficialmente contabilizados e permitem avaliar a participação e o grau de contestação ou insatisfação dos eleitores.