Acesso à pornografia por menores “cria insegurança, insatisfação corporal e dificuldade em colocar limites”
A psicóloga Laura Correia afirmou que, muitas vezes, o contacto com conteúdo pornográfico "acaba por ser a primeira referência da sexualidade e transmite uma visão muito distorcida da mesma", podendo gerar consequências a longo prazo
A psicóloga, Laura Correia abordou o aumento de crianças e adolescentes que consomem pornografia, “numa fase em que não há maturidade relacional, cognitiva ou emocional para perceber aquilo que realmente está a ser visto”.
Em 2019, 40% dos rapazes e 26% das raparigas, entre os 9 e os 16 anos, relataram já ter tido contacto com conteúdos pornográficos, segundo dados apurados em Portugal e que integraram o estudo ‘EU Kids Online’, financiado pela Comissão Europeia.
A pandemia e o isolamento social que resultou da mesma, aproximou, ainda mais, a população em geral das novas tecnologias, mas de uma forma mais acentuada na geração mais nova, levando a um receio de que estes números tenham aumentado de forma expressiva deste então.
A psicóloga clínica explicou que o uso do telemóvel, muitas vezes em contexto escolar, permite “um acesso directo, rápido e ilimitado, sem a orientação de um adulto”.
“O grande problema é que este tipo de conteúdo, quando precoce, acaba por ser a primeira referência da sexualidade e transmite uma visão muito distorcida da mesma, desde corpos irreais, actos sexuais exagerados, algumas relações de poder desiguais entre os géneros, que acaba sempre por influenciar a forma como vivenciam a sua sexualidade e as suas relações”, referiu a especialista em saúde mental.
Sobre a crescente dependência de pornografia, a profissional de saúde referiu que resulta da mesma forma que os jogos e as séries que assistem, ou seja, “no sistema nervoso há uma libertação de dopamina, que é o neurotransmissor do prazer, que nos leva a querer repetir aquele conteúdo por várias vezes ou de forma continuada”.
Isso acontece precisamente neste caso com as crianças, que ao longo do tempo procuram cada vez mais conteúdos e, por vezes, cada vez mais intensos, o que é preocupante, porque estão ainda a desenvolver o cérebro e isto interfere no desenvolvimento saudável e na forma como percepcionam as relações, a intimidade e a sexualidade. Laura Correia, psicóloga
Levada a comentar de que forma a pornografia pode moldar expectativas sobre relações, consentimento e intimidade em crianças e adolescentes, a psicóloga referiu que o “principal problema reside no facto de ainda estarem a aprender sobre esses conceitos.”
“Nos conteúdos pornográficos, o acto sexual aparece muitas vezes despromovido da relação, não há conversa, não há negociação de limites, não há construção de intimidade e, muitas vezes, os jovens internalizam a ideia de que o desejo surge automaticamente, que o consentimento é implícito e que o outro está sempre disponível”, apontou.
Para a profissional, esta exposição a conteúdos que deveriam ser apenas destinados a adultos, prejudica a aprendizagem de algo que é fundamental, o consentimento, “que deve ser sempre explícito, contínuo e pode ser retirado a qualquer altura”.
O consumo precoce de pornografia pode impactar rapazes e raparigas de forma distinta, devido à forma como a sexualidade masculina e feminina é representada.
Para os meninos, passa uma forte pressão para o desempenho, “onde o homem está sempre pronto e no controlo”, que segundo a psicóloga, pode gerar ansiedade, medo de errar e dificuldades em lidar com a própria vulnerabilidade.
Já nas meninas, este tipo de conteúdo reforça a ideia de que “o valor sexual da mulher está sempre no corpo, na aparência, na capacidade de agradar e satisfazer o outro”, levando a que as mesmas “internalizem a ideia de que têm sempre de ceder, de tolerar o desconforto e colocar as necessidades do outro em primeiro lugar”.
“Isto é preocupante, porque acaba por criar muitas inseguranças, insatisfação corporal, dificuldade em colocar limites e, muito provavelmente, leva a permanecer em relações disfuncionais”, sublinhou.
Sobre a educação sexual em Portugal, referiu que apresenta lacunas, como o facto de ser pontual, excessivamente biológica e acabar por descartar os desafios reais que os jovens enfrentam, como é o caso da pornografia online.
Segundo a especialista em saúde mental, falta uma abordagem contínua, actual, que retrate também o consentimento, limites, mas de toda uma dimensão emocional, porque “muitas vezes o que acontece na educação sexual nas escolas é que é muito técnica, focada na reprodução, na prevenção da gravidez, nas doenças sexualmente transmissíveis, que é também muito importante, mas na vida real é sobretudo emocional e relacional.”
Fique a saber que estratégias aconselha a psicóloga aos pais e aos jovens, na entrevista presente no canal do DIÁRIO, no YouTube.