Ministro sérvio julgado por suspeita de ilegalidade em controverso projeto ligado a Trump
A justiça sérvia começou hoje a julgar o ministro da Cultura por "presunção de ilegalidade" na aprovação de um projeto hoteleiro, ligado a um genro do Presidente norte-americano Donald Trump, em antigos edifícios do exército jugoslavo bombardeados pela NATO.
Quando chegaram ao tribunal, o ministro Nikola Selakovic e outros três co-réus foram recebidos por dezenas de manifestantes que os vaiaram e chamaram de "ladrões".
É a primeira vez em décadas que um ministro em funções é levado a tribunal na Sérvia, depois de Selakovic ter renunciado à imunidade ministerial.
O controverso plano de destruir o antigo quartel-general do exército jugoslavo no coração de Belgrado, permitindo a construção de um hotel de luxo por Jared Kushner, foi suspenso em maio, após alegações de que a decisão de revogar o estatuto de "edifício protegido" se baseou num documento falsificado.
O tema é sensível na Sérvia porque estão em causa edifícios bombardeados várias vezes em 1999 durante uma campanha aérea da NATO liderada pelos Estados Unidos para pôr fim à guerra no Kosovo (1998-1999) e que são considerados um exemplo único de arquitetura brutalista.
O Ministério Público responsável pela luta contra o crime organizado afirmou ter acusado Selakovic e mais três pessoas de abuso de poder e falsificação do documento oficial que permitiu remover o "estatuto de património cultural" do local.
Todos os arguidos declararam-se inocentes.
"Não percebo de que crime sou acusado", disse Selakovic ao Tribunal Especial para o Crime Organizado.
A Affinity Partners, empresa de Jared Kushner -- recebido várias vezes na Sérvia pelo Presidente Aleksandar Vucic -- assinou um contrato de arrendamento de 99 anos com o Governo sérvio em 2024 para requalificar o local, cujo estatuto de "património cultural" tinha acabado de ser revogado.
"Os projetos de grande escala devem unir em vez de dividir, e por respeito ao povo sérvio e à cidade de Belgrado, estamos a retirar a nossa candidatura e a retirar-nos do projeto por agora", disse um porta-voz da empresa.
O julgamento provocou fortes reações de apoiantes e críticos do Presidente Aleksandar Vucic.
Vucic e os seus ministros criticaram repetidamente a acusação no caso, bem como noutro julgamento importante relacionado com o colapso mortal do telhado de uma estação de comboios, em novembro de 2024, que desencadeou um movimento de protestos anticorrupção liderado por estudantes e a apelos a eleições antecipadas.