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Crónicas

A partir daqui

A laranjeira, essa que fazia sombra no quintal, já não existe, mas em 1993 ainda lá estava, assim como jardim como a minha mãe o tinha feito e imaginado.

Mudar, seja o que for, é uma maçada e assume proporções dramáticas quando se tem de arrumar em caixas e sacos 13 anos de vida para a transferir para outro lugar. Foi o que fiz nos últimos dois meses e sei como me consumiu, levou-me tempo e ocupou todos os instantes, todas as conversas. E não terei sido a melhor companhia se o que tinha para partilhar era o tipo de soalho, a melhor tinta ou os puxadores para os armários da cozinha e todas as outras tentativas para atenuar os efeitos de 60 anos de uso.

A casa, seja esta carregada de memórias ou outra nova em folha, é um projecto pessoal que, na verdade, interessa a quem a vai habituar, que sente orgulho em tudo o que conseguiu. É mais ou menos como se fazia antes das redes sociais e se insistia em mostrar à família, aos amigos e conhecidos as fotografias das férias e das viagens. E, durante duas semanas, não se falava de outra coisa a não ser das vistas, do que tinha dito a guia ou guia, das bebidas e das comidas, dos castelos ou, se fosse o caso, das montras das lojas caras de Paris ou de Roma.

Nestes meses eu fui essa pessoa, sempre disponível para falar do processo ao ponto de, a cada telefonema, me perguntarem: “então, já está?” E, de facto, já está. A minha morada agora é esta como foi nos primeiros 29 anos da minha vida sem contar com os quatro anos da faculdade em Lisboa. E, em boa verdade, não é sequer o meu primeiro regresso. Houve outro, em 1993, mas com menos tralha e sem a preocupação com a cor das paredes, nem com a arrumação dos móveis.

Esses não são assuntos que ocupem a cabeça de uma miúda de 22 anos, acabada de chegar da cidade grande e empenhada em começar. Lembro-me que, por mim, teria começado lá, em Lisboa, numa redação de um jornal grande. A sorte ditou que fosse aqui e a partir da casa onde, durante a adolescência, contei autocarros e sonhei com uma carreira que ia ser e acontecer, em grande, que a Lina Marta sonhava em grande, enquanto metia a cabeça no livro que estava a ler. Às vezes à sombra da laranjeira; outras vezes em cima do terraço, o lugar com vista para o mar e, onde, nos dias grandes, via o sol a cair por detrás dos eucaliptos.

A laranjeira, essa que fazia sombra no quintal, já não existe, mas em 1993 ainda lá estava, assim como jardim como a minha mãe o tinha feito e imaginado. Um detalhe que, por essa altura, me parecia irrelevante. O meu apego às memórias chegou muito mais tarde, aos 22 anos eu descia os degraus da entrada de dois a dois para não perder o autocarro e regressava tarde. A minha mãe falava comigo de manhã ao pequeno almoço, era ela que me fazia uma espécie de resumo dos noticiários da rádio. Todos os acontecimentos importantes até 1995 foi ela que me contou primeiro: a eleição do Mandela, o massacre do Ruanda e o bloqueio na Ponte 25 de Abril.

A primeira manhã deste novo regresso a casa começou com a notícia do ataque ao Irão e eu pensei na dona Celina, no entusiasmo em saber de tudo, fosse bom ou mau, fosse na Lisboa que nunca viu ou em terras ainda mais distantes. E foi também como se a minha mãe me tivesse tocado no ombro para me dizer, por muito que me tenha consumido a mudança, é tempo de seguir caminho a partir daqui, de onde estou.