A felicidade orgânica
Consciente ou inconscientemente, de forma mais convencional ou por mares nunca antes navegados todos nós procuramos ser felizes a cada momento. Seja conjuntural ou estruturada, não se compra nem se programa. Ela aparece-nos muitas vezes nos sítios mais inusitados nas palavras mais simples e num espaço temporal que nos surpreende de uma maneira tal que raramente parecemos estar preparados para ela. Nas situações menos expectáveis e num formato que nos parece sempre construído à medida como se alguém o desenhasse para nós. Essa é a verdadeira beleza da vida que rasga os perigos e as desilusões e trespassa a monotonia devolvendo-lhe sabor. E não há inteligência artificial que a possa moldar ou substituir. É feita do que é real, de forma orgânica, digna do improviso e da espontaneidade e talvez por isso tão especial. É o nosso objectivo último e primeiro, é a finalidade do que fazemos e do que construímos, a força e a motivação que nos guia, que guarda e nos dá esperança. Às vezes perdemo-nos em objectivos e resultados que nos afastam do que é essencial, para acalmar alguma dor ou afastar pensamentos que nos levam para uma tristeza que nos prende e nos espartilha.
Não é a primeira vez que viajo por este tema, porque se podemos falar de temas superficiais e mundanos também não devemos fugir dos sentimentos, do que nos guarda e segura, da magia que ilumina a profundidade do nosso ser. Há quem o ache fútil, há quem não se sinta confortável ou simplesmente ache que revelar o que lhe vai cá dentro é uma demonstração de vulnerabilidade, muitas vezes confundida com sensibilidade. Por vezes afastamo-nos do que nos faz bem, porque andamos confusos ou mal resolvidos, duvidamos de nós e dos outros e ganhamos medo do que é o reflexo de experiências passadas. As marcas que o tempo nos vai deixando, são ainda assim o maior ensinamento para o que há-de vir, para sabermos de forma mais avisada o que queremos e sobretudo o que não queremos, para onde vamos e onde não queremos de todo estar. Não devemos por isso ficar aí, no sofrimento passado, no rancor que nos amarra a determinadas situações ou circunstâncias.
Quando nos vamos deparando com a inevitabilidade do tempo, vamos naturalmente dando valor aos pequenos momentos, às atitudes que antes achávamos tão insignificantes e percebendo assim o que realmente interessa e nos faz falta. Há quem deixe de viver durante anos na ânsia de amealhar e há quem se perca no que é secundário e se esqueça do essencial. E o essencial é saber usufruir do que temos, em cada compasso da idade, a cada segundo. Talvez por isso ache que a felicidade é um projecto de vida que nos deve acompanhar em todos os outros, que permanece e que fica, nos torna melhores e mais inteiros. E ela aparece muitas vezes quando menos esperamos, quando nem procurávamos nada ou achávamos que já não era possível. É o friozinho na barriga, o arrepio da pele, o calor no pescoço e o beijo prolongado. É o não apetecer ir embora, o querer ficar ali para sempre.
Se a felicidade é algo que se busca constantemente também é algo que nos passa pela frente e que temos que agarrar com as duas mãos. Se a vida passa num sopro é impossível não nos deixarmos levar pelo lado bom e não nos deixarmos seduzir pelas coisas boas que nos aparecem levemente, sem pedir autorização e nos mostram que há um caminho, um caminho que não tem que ser escuro e fechado mas que nos abre um oceano de possibilidades, que nos faz sorrir a cada instante e nos transforma o peso em levitação. A felicidade é algo orgânico que temos dentro de nós e que temos que descobrir, que temos que dar oportunidade, que temos que viver. Temos o direito de ser felizes e a capacidade de o realizar nos outros, só temos que fazer valer a pena.