A demagogia do Chega
Assiste-se, com crescente inquietação, à forma como o Chega constrói o seu discurso público assente numa retórica de choque que, mais do que esclarecer, parece procurar confundir. As propostas apresentadas carecem frequentemente de densidade técnica e de credibilidade política, sendo acompanhadas por uma constante manipulação narrativa que simplifica problemas complexos e distorce factos para produzir indignação imediata. Não se trata de debate sério: trata-se de teatro político.
Preocupa igualmente o recurso sistemático a mensagens que exploram o medo e o ressentimento, apontando imigrantes e minorias como bodes expiatórios de fragilidades estruturais que são, na verdade, antigas e transversais. Este tipo de estratégia não resolve nada; apenas fractura a sociedade e alimenta um clima de suspeição que empobrece a democracia.
Muitas das afirmações repetidas pelo partido parecem desenhadas para criar uma realidade paralela, onde a excepção é apresentada como regra e onde a indignação substitui a argumentação. O objectivo não é informar os portugueses, mas mobilizá-los através de exageros e meias-verdades. Essa táctica pode ser eficaz a curto prazo, mas corrói a confiança pública e degrada o espaço cívico.
Há, por trás desta visão, uma nostalgia inquietante por modelos sociais hierárquicos e autoritários, pouco compatíveis com a igualdade de direitos que a Constituição consagra. A admiração por figuras internacionais conhecidas pelo seu populismo agressivo reforça a ideia de que o projecto político não é de progresso, mas de regressão cultural.
Na Madeira, a réplica local do fenómeno surge desprovida até do carisma estratégico da liderança nacional: sobra o ruído, falta a substância. A política não pode ser reduzida a provocação permanente. Um país constrói-se com rigor, responsabilidade e respeito — não com distorção calculada da realidade.
Nuno Dias