A Filosofia do Martelo
A liberdade de ser talvez seja a mais exigente de todas as liberdades. Não basta que esteja consagrada na Constituição ou proclamada nos discursos políticos. É necessário que cada pessoa possa pensar, discordar e existir sem receio de ser diminuída, silenciada ou castigada por não corresponder às expectativas dos outros. A história humana está repleta de tentativas de domesticação do pensamento. Mudam os tempos, os instrumentos e os protagonistas, mas permanece a tentação de controlar quem pensa de maneira diferente. A intolerância nem sempre é ruidosa. Por vezes, manifesta-se na exclusão, no ressentimento ou no exercício arbitrário do poder.
É neste contexto que a Filosofia do Martelo, de Friedrich Nietzsche, adquire uma extraordinária atualidade. O martelo não significa destruir indiscriminadamente, mas submeter os valores, as verdades estabelecidas e os ídolos de uma sociedade a um exame radical. Em Crepúsculo dos Ídolos, o martelo é também um instrumento de diagnóstico: ao percutir os ídolos, permite escutar a sua sonoridade e descobrir a fragilidade daquilo que parecia sólido e inquestionável. O martelo nietzschiano não serve apenas para denunciar a falsidade das certezas herdadas. Integra uma crítica mais profunda aos valores que negam a vida, reprimem a diferença e transformam a obediência numa virtude. Questionar esses valores é abrir espaço à criação, à afirmação da existência e à possibilidade de cada ser humano não se limitar a reproduzir aquilo que lhe foi imposto. Há, nesta filosofia, uma dimensão profundamente libertadora. O martelo não oferece conforto, porque pensar implica perder algumas certezas. Mas permite encontrar luz onde o conformismo instalou a sombra, esperança onde o medo impôs o silêncio e resistência onde o poder exige submissão. A liberdade de Ser começa precisamente quando deixa de ser necessário o medo de expressar o pensamento.
A Educação deveria cultivar essa coragem. Não para formar indivíduos permanentemente em discordância, mas cidadãos capazes de distinguir a autoridade do autoritarismo, o conhecimento do dogma e a liberdade da obediência. Também a democracia precisa desse exercício crítico. A liberdade de ser inclui o direito de questionar o que parece inevitável.
A indignação perante a injustiça não constitui uma ameaça à democracia, mas pode representar uma das suas expressões mais vivas. Por isso, a juventude que sai à rua merece respeito. Chamar extremista a quem protesta contra a precariedade, a desigualdade ou a ausência de futuro revela uma preocupante incompreensão da liberdade. Aos governantes não basta declararem disponibilidade para ouvir. Compete-lhes responder aos problemas que justificam os protestos.
Num tempo em que os salários não permitem pagar uma renda, onde a habitação se transforma num privilégio e onde o futuro parece permanentemente adiado não se pode exigir resignação, a indignação é legítima e a Esperança uma forma de resistência. A Esperança não é ingenuidade. É reconhecer a dificuldade da realidade sem abdicar da possibilidade de a transformar. Podem perder-se ilusões sem perder princípios. Uma democracia que teme a indignação dos jovens começa a temer a própria liberdade. Estranho não é a indignação dos jovens, mas esperar que se calem. Aqui o martelo é o direito de ser Vida.