Capitão Madeira, obrigado
Cristiano Ronaldo tem sensivelmente mais 10 anos que a minha geração. Antes dele, Portugal tinha um honroso mundial de 1966 - que o meu pai e o meu avô me falavam com nostalgia- e um Euro 2000, cujas memórias tenho, embora muito ténues, em que o Abel Xavier era o culpado de não termos chegado à final. Tudo o resto eram histórias trágico-cómicas entre a participação portuguesa em Saltillo em 1986 e o soco do João Pinto a um árbitro no Mundial da Coreia em 2002.
Lembro-me bem daquela noite de 6 de agosto de 2002. Era criança, estava em família e a RTP 1 transmitiu a inauguração do Estádio José de Alvalade em que um jovem rapaz quebrou vários dos jogadores do Manchester United. Aquilo era um dó de alma. Os internacionais ingleses pareciam saídos de um pub às duas da manhã dada a quantidade de vezes que iam ao chão. O motivo das quedas era um tal Cristiano. Madeirense e jogava num dos maiores clubes portugueses. Já na altura isto era uma conquista incomensurável.
Dizia-se que tinha algum talento, mas que Ricardo Quaresma - seu colega de formação no Sporting - era muito melhor e que teria muito mais futuro. Ronaldo tinha jeito, Quaresma tinha magia. No entanto, aquele 06/08/2002 mudou para sempre a visão que tivemos do nosso país, pelo menos no desporto.
Muito longe de imaginar que seria 5 vezes bola de ouro, Cristiano demonstrou que com disciplina, foco, trabalho e, por vezes, muita saudade podemos contrariar a pretensa sina da vida. Ainda ninguém gritava “Sii”, mas já todos vibrávamos com os seus dribles, os seus remates e a forma como transformou a mentalidade do desporto português.
Entre 2004 e 2006 a nação pequena e que não contava tinha dois grandes resultados em grandes torneios internacionais de futebol. O único registo semelhante ocorrerá há 40 anos. E nesses dois grandes resultados despontava um jovem madeirense que corria e encantava. De repente, aos 10 anos, também eu tinha um grande mundial na memória, tal como o meu pai tivera o de 1966. No entanto, a minha geração acreditou que venceríamos uma grande competição internacional. E acreditou porque apesar de Portugal ter tido uma geração de ouro, com Figo, Rui Costa, Fernando Couto entre outros, foi com Ronaldo que sentimos que poderíamos ir mais longe.
Num tempo em que nem se falava de IA e a Internet era uma descoberta recente, Cristiano brilhava com velocidade e toques únicos. Mas a todos os jovens madeirenses aquilo que Ronaldo deixou foi muito mais: afirmou, sem tibiezas, que podemos ser o que quisermos. Primeiro no nosso país, depois no mundo. Apesar de ilhéus e, por isso, distantes e periféricos, Ronaldo demonstrou que o meio é muito pouco relevante quando se tem talento, ambição e disciplina. Quando sonhamos e ousamos ser felizes. Ronaldo é a demonstração física, viva e real que os limites que definimos são, muitas vezes, os limites que aceitamos como barreira para alcançar a nossa felicidade. Ronaldo elevou a fasquia, foi destemido e foi compensado por isso, com toda a justiça.
Curiosamente, estive no seu último jogo com a camisola de Portugal. Vi-o marcar um último golo, entretanto anulado, festejando como se fosse o primeiro. Gravei a sua substituição sem saber que seria a última vez que o vira de quinas ao peito. O aplauso prolongado, sem saber que era o seu último jogo, é a reverência e confirmação dos seus feitos: é único.
Cristiano é a maior homenagem à “madeirensidade”. Não tenham dúvidas: aquela força, talento e tenacidade reside em cada um dos madeirenses. Talvez Cristiano tenha tido a inteligência de focar o seu virtuosismo naquilo que interessa, não se perdendo em questões secundárias, estéreis e que nos desviam do essencial: ser feliz, lutar pelos sonhos.
Guardarei, para sempre, o orgulho de transmitir em cada canto, a história de um capitão que liderou sonhos de uma nação recheada de velhos do Restelo, saudosista e receosa do futuro. Um Capitão madeirense que dá ilha fez sonhar todo um país continental tão hostil aos seus territórios insulares. Para a Madeira essa será a maior conquista de Ronaldo. Para todos, a o seu legado é outro: a inspiração de que o impossível só reside num sítio para além do dicionário: na nossa cabeça.