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Crónicas

Diário de uma angústia

1 - Acordava antes do despertador, com os dentes apertados e uma conta por acabar dentro do peito, ainda o mar era uma espessura escura por baixo das casas e já a colher da mãe tocava na chávena, o mesmo tinido que o chamara para a escola atravessava agora os anos até à cama onde continuava a dormir, grande de mais para o quarto, com a camisa do trabalho pendurada na cadeira dos trabalhos de casa e, junto da ombreira, a marca a lápis que o pai fizera encostando-lhe um livro à cabeça, tinha crescido tanto desde aquela linha e continuava ali, a vestir-se devagar para poupar a mãe ao ruído dos sapatos, a ensaiar diante do espelho uma cara capaz de atravessar o pequeno-almoço sem perguntas, embora ela já soubesse, soubesse pelo tempo que ele levava a pousar o telefone, pelo pão que deixava no prato, pela maneira de responder que andava a ver, sempre a ver, percorrendo casas onde aprendia a reconhecer a humidade através de uma fotografia e a medir a largura de uma cama pelo espaço que lhe deixavam de fora, quartos sem janela, cozinhas encostadas ao sono, uma varanda que talvez desse para pôr a cómoda da avó se desistisse da mesa, desistia de móveis antes de os ter, de um livro aberto, de receber alguém, ia diminuindo a vida até à dimensão que o ordenado pudesse pagar e mesmo assim faltava dinheiro, faltava sempre aquela quantia que voltava a crescer durante a noite; entretanto aceitara mais um turno, perdera um domingo, começara a doer-lhe um joelho, o corpo entrava nas contas por partes, horas, vértebras, sono, e no fim do mês a soma ainda o devolvia ao quarto de infância; no autocarro para o Funchal levava a testa quase encostada ao vidro e seguia as varandas dos prédios novos, havia outros que as seguiam também, o movimento dos olhos denunciava-os antes de baixarem a cabeça na paragem, depois o autocarro continuava e as varandas iam ficando suspensas por cima deles, tão perto que distinguia as plantas, tão longe que deixara de perguntar preços, à chegada vestia a farda e começava a fazer camas, estendia os lençóis com as mãos abertas, alisava a dobra onde alguém viria encostar o rosto, sabia a distância exacta entre o candeeiro e a almofada, a forma de deixar uma cortina para a luz entrar sem incomodar, e às vezes demorava os dedos na madeira da mesa, experimentava por um instante o lugar de uma chávena, os óculos da mãe pousados ao lado, um domingo inteiro ainda por gastar, até o carrinho ranger no corredor e o chamar de volta às camas que faltavam, levava depois o detergente entranhado nas unhas, aquele cheiro acompanhava-o no autocarro, subia com ele a vereda, misturava-se ao jantar e à pomada que esfregava no joelho antes de abrir os anúncios; havia uma casa que desaparecera, outra que custava mais, outra onde pediam recibos, garantias, dinheiro adiantado, ficava a olhar o próprio recibo e sentia que tinha de pedir desculpa pelo que ganhava, pela insuficiência que lhe entrava no banco com o nome escrito por extenso, ia tirando o passe, a ajuda para a casa, a farmácia, guardava o resto numa conta a que chamava caução; precisava daquela palavra para dar um destino ao dinheiro, e por vezes tirava de lá vinte euros, voltava a pô-los no mês seguinte, meses a recompor vinte euros enquanto a casa se afastava por centenas; naquela manhã o jornal trouxera mil e trinta e quatro euros junto da palavra acessível, ele passara o dedo pelo número e fizera uma conta na margem, à primeira faltara a água, à segunda a electricidade, depois lembrara-se dos sapatos que já deixavam entrar a chuva e da consulta adiada, a mãe quisera saber se havia novidades e ele dobrara o jornal pela dobra antiga, com o cuidado inútil de quem procura fechar uma notícia sem deixar nada de fora, respondera que estavam a tratar do assunto, a mãe assentira, aquela confiança dela obrigava-o a baixar os olhos, crescera a ouvi-la dizer que o trabalho havia de lhe dar uma vida e agora precisava de proteger também essa frase, conservá-la inteira na boca da mãe, poupá-la à descoberta de que o filho trabalhava, trabalhava, e a casa continuava fora do alcance das mãos; à noite o mar arrastava pelas pedras as arcas dos ausentes, reconhecia a do avô pelo fecho de metal que a avó limpava antes de cada partida, levara-a para a Venezuela com camisas, uma fotografia e o cheiro do armário, voltara depois em fitas que a avó escutava aos domingos, muito direita na cadeira, a aproximar o gravador do ouvido quando a voz se perdia, devia estar constipado, dizia, e tantos anos de chuva tinham cabido naquela explicação que agora, ao passar na levada, ele ouvia o avô perguntar-lhe se já arranjara o seu cantinho, a água demorava-se entre duas pedras à espera de resposta, ele acertava o passo, dizia que ia andando, o avô descia para o mar levando uma mentira pequena que pesava mais do que a arca; com a mulher de quem gostava sentava-se num muro acima da cidade, ela trazia duas peças de fruta e abria o telefone sobre os joelhos, começavam pelos ordenados, acabavam a calcular distâncias, gasolina, o preço de poderem acordar juntos, havia dias em que ela lhe tocava no braço antes de mostrar o anúncio, preparava-o para a esperança com a delicadeza que se usa para tocar numa ferida, e ele chegava a escolher um canto para os livros, uma parede para a fotografia em que ainda estavam todos, depois aparecia uma despesa esquecida, um fiador impossível, a caução, e o silêncio tornava a sentar-se entre os dois, nesse silêncio tinha começado a caber um filho, imaginavam-lhe um nome e logo o retiravam da conversa, ficava aquela criança por dizer, envelhecia com eles sem ter nascido; enquanto os amigos mandavam fotografias de cozinhas longe da ilha e perguntavam quando partiam, ele demorava-se no azulejo, no escorredor, num casaco pendurado atrás de uma porta, pequenas provas de uma vida instalada que lhe apertavam a garganta mais do que as fotografias de grandes viagens, depois erguia os olhos para a encosta e conhecia cada luz, a casa onde morrera uma tia, a vereda por onde o pai levava as compras, o muro ainda quente onde esperara por ela a primeira vez, a ilha prendia-o por esses sítios miúdos, pela voz de alguém a chamá-lo da janela, pelo modo como a mãe lhe guardava o jantar, e havia uma crueldade íntima em saber tão bem de onde era e ter de fazer contas para conseguir permanecer; quando regressava encontrava a luz do corredor acesa, a mãe adormecera com a televisão baixa, o sono fazia-lhe parecer mais pequena a mão pousada sobre a manta; ele tirava-lhe o comando devagar e ficava um instante a olhar os dedos que lhe tinham abotoado a bata da escola, depois ia ao quarto, abria a gaveta das coisas para a sua casa, duas chávenas embrulhadas num jornal antigo, um pano de cozinha bordado pela mãe, a chave encontrada pelo pai numa vereda e guardada com a certeza de que alguma porta se havia de descobrir para ela, punha-a na palma e fechava os dedos, o ferro deixava-lhe o seu frio, do quarto ao lado chegava a tosse, faltava ir buscar o remédio, fazia a conta, retirava mais uma parte à caução, a marca a lápis continuava na ombreira à altura da criança que fora, passava por ela para levar um copo de água à mãe, voltava às escuras sem precisar de acender a luz.

2 - O que hoje escrevo saiu do registo a que habituei quem tem a paciência de me ler. Não nasce de uma notícia, de uma estatística ou de mais um daqueles episódios que tantas vezes me obrigam a recorrer à ironia para não ceder à indignação. Nasce de uma conversa de café, com alguém que eu não conhecia, e que, por alguma razão que ainda não compreendi, decidiu confiar-me uma angústia acumulada durante anos, feita de silêncios, humilhações, noites mal dormidas, esperanças adiadas e uma vida inteira à procura de alguma tranquilidade. Começou por falar timidamente e acabou por deixar sair aquilo que há muito lhe corroía a vida e a alma. Fiquei a ouvir, porque há momentos em que as palavras de quem escuta são dispensáveis e o sofrimento de quem fala não precisa de conselhos, mas apenas de alguém que o acolha sem julgamentos.

Há qualquer coisa de profundamente perturbador em perceber que, por detrás de um rosto desconhecido, de um sorriso educado e de uma existência aparentemente normal, pode esconder-se um sofrimento que ninguém imagina. Enquanto ouvia, pensei na facilidade com que discutimos números, denunciamos injustiças e confrontamos os responsáveis com as consequências das suas decisões, esquecendo que os grandes problemas têm rostos, entram pelas casas, roubam o sono, desgastam os afectos e acabam por consumir aquilo que resta da esperança. Aquela conversa acompanhou-me, deixando-me com a inquietação de saber que, enquanto nos entretemos a discutir o mundo que imaginamos estar a construir, há pessoas que gastam todas as suas forças apenas a tentar sobreviver ao mundo em que vivem.

Talvez por isso o texto de hoje tenha menos mordacidade e mais humanidade. Será menos político na forma, embora profundamente político na substância, porque poucas coisas revelam tanto sobre uma sociedade quanto o sofrimento que ela permite e a indiferença com que o contempla. Escrevo para que aquela conversa não se perca na banalidade de uma chávena vazia e de uma tarde que continuou como se nada tivesse acontecido. A pessoa com quem falei não me pediu que escrevesse, mas recordou-me que, por detrás das proclamações sobre o progresso, das estatísticas triunfais e das promessas de prosperidade, existem pessoas de carne e osso que amanhã voltarão a acordar com os mesmos medos e a mesma incerteza.