Espanha: a crise da habitação
Em 23 de Setembro, a acção de despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, que durante 70 anos foi uma inquilina cumpridora, em Madrid, desencadeou a solidariedade e protesto público, em várias cidades, pela dificuldade no acesso à habitação.
No 1º trimestre de 2026 aconteceram 45 acções de despejo diário; em 2025, 24 520 casos; em 2021, 39 096 casos.
“Mas como é possível que, em um país que entre 1997 e 2008 chegou a construir cinco milhões de casas e apartamentos — cerca do dobro da procura do mercado na época —, existam hoje centenas de milhares de pessoas com dificuldades para ter acesso a uma moradia?
Passamos de construir quase 14 casas por 1.000 habitantes, o que era uma aberração, para duas por 1.000, o que é outra aberração, enquanto no resto dos países se constroem quatro casas por 1.000 habitantes”, diz José García Montalvo, professor de Economia da Universidade Pompeu Fabra.
O resultado é que hoje o país tem um défice habitacional de cerca de 750 mil habitações, segundo dados do Banco de Espanha. No entanto, há poucos dias a entidade reguladora alertou que este número poderá ultrapassar um milhão nos próximos dois anos se não forem tomadas medidas. Cerca de 2,4 milhões de espanhóis possuem casas e apartamentos alugados, segundo dados do Observatório do Aluguel. Desde 2015, os preços das casas e apartamentos para venda ou arrendamento subiram 80%, enquanto os salários dos trabalhadores aumentaram apenas 30% no mesmo período, segundo dados do INE.
Em algumas cidades espanholas, o preço médio do aluguer atinge atualmente 1.335b dólares por mês, valor que equivale a 98,7% do salário médio de um jovem.
Nos últimos anos, muitos desses proprietários optaram por alugar esses imóveis a turistas ou a pessoas com estadias de curta duração, o que reduziu o número de unidades disponíveis para famílias, apontam os especialistas consultados. Segundo o INE, espanhol, existem 3,8 milhões de casas que estão vazias, mas que a sua localização não coincide com a localização da procura.
“Os fundos de investimento são um novo ator que entrou com força no mercado espanhol, em grande parte promovido pelo governo, porque possuem créditos fiscais diferenciados.
A sua forma de proceder aquece muito o mercado, através de grandes compras de casas que revendem por preços mais elevados em três ou quatro anos, sem fazer qualquer investimento em melhorias”, acrescenta.”
“Quem consegue um imóvel para arrendar? Apenas o primeiro? E quem é o primeiro? O nómada digital que ganha 6.000 euros (6.800 dólares) de uma empresa alemã ou suíça. Quem são os últimos? Os imigrantes, os jovens e as famílias monoparentais, que nunca chegam a arrendar”, explicou Garcia Montalvo.
O que acontece, então? Que os inquilinos são cada vez mais ricos; por isso, a estatística melhora, uma vez que não é preciso despejar o nómada digital”, acrescenta.
Na sua opinião, este fenómeno explica também porque é que cada vez mais imóveis nas grandes cidades espanholas são arrendados por quartos, em vez de serem arrendados na totalidade. O mercado está tão pressionado que já não se alugam imóveis completos, mas sim aos bocados”. (“Cómo España pasó de construir más casas de las que necesitaba a enfrentar una grave crisis de vivenda”, 01 Out., BBC News Mundo ).
João Freitas