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A “Direita” está a morrer?

O verão de 1789 foi particularmente quente em França. A 14 de julho uma inesperada revolta popular toma de assalto a prisão da Bastilha dando início à revolução francesa. Foi constituída uma Assembleia Constituinte que aprovou um conjunto de reformas estruturais, pondo fim aos poderes absolutos do Rei. A 4 de agosto os deputados aboliram o sistema feudal e os privilégios da nobreza e clero. A 26 de agosto aprovaram a Declaração dos Direitos do Homem instituindo a liberdade e igualdade de todos perante a lei. Criaram o conceito de propriedade privada, um direito de posse acessível a todos os cidadãos. No entanto estas eram Leis avulsas, faltava uma Constituição que solidificasse a nova monarquia parlamentar.

A 11 de setembro o calor do verão deu lugar a um dia de Outono, um presságio? Nesse dia a Assembleia vai decidir os limites ao poder do Rei numa nova constituição. É o dia decisivo. Naquele dia, os membros sentaram-se “espontaneamente” de ambos os lados do seu presidente. À direita, os fiéis ao rei pedem o direito de veto absoluto do Rei. À esquerda, queriam limitar o veto do rei. E quando o presidente se dirigia a um dos grupos, ele dizia “à direita” ou “à esquerda”. Existiam ainda aqueles viam coisas positivas em ambos lados, os “Centro”, bem como aqueles que queriam impor esses ideais pela força, eram chamados de “Extrema Direita” ou “Extrema Esquerda”. O “espontâneo” acabou por ser afinal gregário e elucidativo. Este dia marcou a política dos dois séculos seguintes e ainda marca a vida política de todas as democracias do mundo.

E é importante saber de onde viemos, e como certos conceitos existem, para saber onde estamos e onde iremos. Também, alguns leitores certamente ficarão curiosos com a contundência do título deste artigo. Escolhi-o quando via as declarações do chanceler alemão, Friedrich Merz, no congresso da CDU, o seu partido, realizado recentemente em Estugarda. Um momento difícil para a direita alemã, cujas sondagens lhe atribuem só 19% dos votos.

Na verdade, há uma “contra revolução silenciosa” na Europa. Com o fim da Guerra Fria o espectro político mudou. Fragmentou. Polarizou. Surgiram forças insurgentes. Ocorreu uma rápida mudança nos estilos de vida. Numa Europa na qual o crescimento estagnou, a insegurança económica e social é o discurso do dia.

Alguns partidos socialistas e sociais-democratas tornaram-se algo “burgueses” e muitos eleitores de esquerda, inseguros do seu futuro, migrarem para outros partidos. No entanto, em vez de migraram para a direita tradicional, abraçaram os populistas de extrema-direita. Estes têm uma retórica “anti-establishment”, antiglobalização e protecionismo. Defendem o chauvinismo das regalias do bem-estar social com o fim da imigração. Ao mesmo tempo idolatram a identidade nacional. A própria crescente desigualdade de riqueza na Europa energiza o voto populista que faz uso e abuso da desinformação política e social. E os partido democratas-cristãos têm agora a hostilidade dos agentes políticos “evangélicos”, muito ativos nos Estados Unidos e no Brasil, mas ainda incipientes na Europa.

Mais de um quarto do eleitorado europeu apoia atualmente forças situadas na direita radical ou populista, alterando de forma estrutural os equilíbrios de poder no Parlamento Europeu e nos governos europeus. Políticas até agora consensuais como o apoio à Ucrânia, a política de defesa atlântica, a contenção das ambições imperialistas de Putin, então agora em rápido desmantelamento.

Ao mesmo tempo, há uma certa “proletarização” da direita radical. As direitas tradicionais têm historicamente defendido a desregulação neoliberal, mas a atual perda de poder de compra e expectativas, e a dificuldade do acesso à habitação pela classe média e baixa, fez delas os alvos eficazes de um discurso populista, em que a extrema direita tem encontrado apoiantes. Assim, compreendemos como em Portugal, a esquerda e o populismo se unem para rejeitar em conjunto novas leis laborais e ambos exigem garantias de direito à habitação, que acabam por encurralar o centro-direita neoliberal tradicional, estes incapazes de dar respostas, como é manifesto agora em Portugal.

A direita tradicional enfrenta uma crise existencial evidente. A esquerda também, mas esta mostra sinais de reação e recuperação, ao usar a mesma arma dos seus inimigos, a radicalização ideológica. Seja contra Trump, contra os bilionários, contra o fascismo. Os exemplos brotam como pipocas, Zohran Mamdani em Nova York, Elif Eralp em Berlim, Lula no Brasil, Mark Carney no Canadá, Pedro Sánchez em Espanha, Andy Burnham no Reino Unido, com a falência completa do Brexit. E a esquerda afastou populistas na Polónia, Hungria e agora na Sérvia, muito para desagrado de Putin.

A resposta da direita tradicional é diferente. Há sinais que esboçam uma certa “canibalização” Ideológica. Para conter as perdas, abandonaram o cordão sanitário histórico que tinham com o extremismo e o fascismo. Repare-se como o PSD e o CDS agora adotaram a retórica anti-imigração de linha dura, a intolerância com as manifestações, estrangulamento dos apoios sociais, bem como posições mais tradicionalistas do papel da mulher na sociedade, posições que certamente envergonhariam Sá Carneiro, Lucas Pires, Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa ou Assunção Cristas. Não creio que resulte.

Neste momento de mudança, muitos como eu, que sempre defenderam um posicionamento de centro-direita, moderado, democrata-cristão, sentem-se um pouco órfãos, em que as referências mudam, ou morrem. Deixo-vos o contexto, a preocupação e, acima de tudo, a interrogação!