Talvez seja a vida a fazer justiça...

Cuidei da minha profissão por mais de trinta anos. Aposentei-me quase há vinte, e ainda hoje acho que está em razoável estado de conservação, permitindo-me que, de quando em vez, alinhave uns rabiscos em jeito de textos.

Os professores são “construtores” de seres humanos, e construir um ser humano leva tempo e não se fabrica por algoritmo. Esta imensurável responsabilidade, desta mui digna profissão congrega alguns intervenientes fundamentais no processo: Famílias, Escolas e Instituições das quais, nos nossos dias, parece ter-se ausentado a pedagogia dos valores. Eu continuo, domesticamente, a cultivar os meus e a partilhá-los na medida dos meus saberes e experiência de vida honrando, de certa forma, o que me foi legado pelos que me precederam. Serei antiquada? Pois que seja . Há valores de que não abdico e a Educação será sempre intemporal. É, pois, com preocupação e até alguma revolta que assisto à banalização da inversão de valores. O que fizemos ao altruísmo gratuito? Porque as relações sociais na maioria das vezes têm em vista a oportunidade de hedonismo, exploração ou interesses pessoais? Para onde se eclipsaram a empatia, a sensibilidade, o sentido de humanidade e o respeito pela individualidade?

Ninguém me contou. Eu vi e ouvi tratar com uma frieza quase cruel pessoas em vulnerabilidade, quando apenas uma palavra de ânimo ou um simples sorriso tornaria uma notícia desagradável menos penosa. Numa Instituição onde se deveria privilegiar os afectos. Eu vi e não calei a minha revolta. Serão sinais dos tempos? Ou sempre foi assim?

As pessoas fingem que se preocupam, fingem que sentem, fingem que são boas, mentem e acreditam nas próprias mentiras. Ser verdadeiro hoje é quase um insulto. A verdade incomoda. Ser honesto é um problema. O falso é a normalidade. E a vida segue.... Os anos passam automaticamente para todos, ao contrário da maturidade. E tudo passa tão rápido até não sermos nada. O inquilino natural da nossa consciência, o ego, aliado à imaturidade dá-nos sempre razão, ainda que profundamente errados. Não há nenhum botão nem nenhum toque de mágica para transformar uma consciência superficial em consciência profunda, “a pedra angular”, garante de uma construção segura e sólida. Uma consciência superficial gera um egocentrismo desmedido, uma necessidade doentia de atenção e arrogância a rodos. Indivíduos com estes atributos encontramo-los por aí aos molhos. São peritos a distorcer a realidade, a mentir com convicção e a insultar quem tem o direito de pensar diferente. Quando isto acontece foi porque algo falhou no processo. Invariavelmente estas pessoas acabam sozinhas. Porque ninguém aguenta para sempre alguém que se sente superior aos outros, que não tem empatia, que não assume os seus erros e revela maldade nas atitudes.

Talvez seja a vida a fazer justiça...

Madalena Castro