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Crónicas

A vida que ainda nos cabe

“Como conhecer o segredo da morte, se não o procurarmos no coração da vida?” Khalil Gibran

Caramba. Não sei lidar. As despedidas esmagam-me, sobretudo a despedida da morte. Parece que a terra que nos sustenta se desprende e nos arrasta para as suas entranhas. Sei que atravessar o luto, aceitando a vulnerabilidade, pode revelar-nos uma dimensão espiritual da vida. O luto devolve-nos uma medida diferente das coisas. Aquilo que ontem parecia urgente perde importância, e aquilo que julgávamos garantido revela-se o mais precioso e o mais frágil. Essa revelação não acontece logo. Antes, há o espanto, a resistência, a vontade de fazer recuar o tempo até ao instante em que ainda não sabíamos. A vida já tinha mudado, mas nós ainda habitávamos a anterior.

Há inocência no instante anterior à notícia. Depois, até o banal parece pertencer a outro mundo. Temos poucas certezas na vida. Uma é esta: nascemos e morremos. E, ainda assim, vivemos como se a morte fosse reservada aos outros. Será uma forma de nos protegermos? Como fazer planos com a consciência permanente do fim? Mesmo quando sabemos que se aproxima, alguma coisa dentro de nós continua a pedir uma exceção. É difícil aceitar que o amor não consiga impedir uma morte. Que toda a nossa vontade de cuidar encontre um limite. Podemos amar alguém com tudo o que somos e, ainda assim, não conseguir fazê-lo ficar. Ficamos com tanto por oferecer. Uma conversa, um passeio, um telefonema, aquela mensagem, mais uma tarde sem importância. O tempo comum, que julgávamos inesgotável. Tolentino Mendonça escreve: “A nossa tentação de omnipotência é uma ilusão que, com maior ou menor estrondo, acaba por tombar.” A morte expõe essa ilusão. Julgávamos conseguir sempre fazer alguma coisa. Insistir, chegar a tempo. E continuamos a fazer. Mesmo depois. Há compromissos que exigem resposta. A fuga para a frente confunde-se, tantas vezes, com a nossa maneira de viver. Só nós sabemos o esforço para não deixar uma hora vazia. Mas a inquietação acompanha-nos. Chega ao silêncio do carro, à pausa entre duas tarefas, à noite em que o corpo está cansado e o pensamento não descansa. Uma morte aproxima-nos da possibilidade de todas as outras. Olhamos para quem amamos e vemos uma fragilidade que já não conseguimos ignorar. Conheço o amparo de quem acredita em algo maior. A fé pode oferecer uma intimidade com o mistério que torne menos solitária esta experiência. Não significa ausência de sofrimento. Podemos acreditar num reencontro e sofrer por não podermos escutar aquela voz, dar e sentir aquele abraço, hoje. A esperança na eternidade não elimina a falta de alguém numa manhã concreta. O médico Manuel Sans Segarra defende, a partir da sua interpretação das experiências próximas da morte, a existência de uma “supraconsciência” que transcende o corpo. A continuidade da consciência após a morte irreversível não está cientificamente demonstrada. Mas o que mudaria se conseguíssemos confiar que não acaba tudo aqui? Esta pergunta revela alguma coisa sobre nós, os que ficamos. Sobre a dificuldade de conceber que uma vida inteira, com as suas memórias e afetos, possa deixar de existir. Nem com toda a filosofia desta vida consigo aceitar que alguém que foi um mundo para nós deixe de estar no mundo… Não tenho respostas. Penso que a espiritualidade também começa aí, na humildade de admitir que a nossa compreensão não abrange toda a experiência de estar vivo. O poeta e pensador libanês Khalil Gibran escreveu, em O Profeta, sobre a impossibilidade de compreender a morte sem procurar o seu segredo no coração da vida. Esta ideia toca-me. Profundamente. A morte, ao levar-nos alguém, confronta-nos com a dimensão daquilo que tínhamos connosco. A presença, a possibilidade de amar, a simplicidade de ainda estarmos aqui. Entretanto, temos esta vida. E se hoje fosse o último dia? O que ficaria por dizer? A quem telefonaríamos? Que abraço não adiaríamos? Quanto daquilo que nos ocupa os dias continuaria a importar? A finitude pode devolver-nos a atenção que a pressa consumiu. Voltamos a ouvir. Deixamos de querer resolver a tristeza de alguém e conseguimos ficar ao seu lado. A morte expõe o absurdo de certas disputas, a inutilidade de tantos ressentimentos e a tristeza das palavras adiadas. Continuo sem saber lidar. Há despedidas para as quais não encontro preparação. Temo nunca a encontrar. Durante muito tempo, pensei que aprender a lidar com a morte seria aceitar a ausência. Hoje, compreendo que também é aprender a viver com uma consciência mais profunda da presença. Daqueles que ainda podemos abraçar. Das palavras que ainda podemos dizer. Do tempo que ainda podemos oferecer e partilhar. Continuo sem saber lidar com a morte. Mas quero viver com intenção. Quero aprender a não me distrair do essencial.