E se fosse a última visita

Há coisas que custam mais quando deixamos de as ver como números.

No meu trabalho, vejo com frequência famílias a despedirem-se de alguém. Vejo também pessoas que não conseguem levar um familiar para casa porque a habitação não está preparada, porque faltam condições físicas, porque não existe apoio suficiente ou simplesmente porque o dinheiro não chega.

Uma pessoa doente, dependente ou acamada não representa apenas uma cama hospitalar. Representa despesas, adaptações, cuidados permanentes, deslocações, medicação e, muitas vezes, uma família inteira a tentar fazer o impossível com aquilo que tem.

E depois existem situações aparentemente pequenas, mas que dizem muito sobre aquilo que estamos a normalizar.

Quantas vezes ficam os elevadores fora de serviço?

Quantas vezes somos nós, profissionais, a ter de dizer a uma pessoa idosa, muitas vezes com mobilidade reduzida, que terá de subir vários lanços de escadas para conseguir visitar um familiar internado?

Já vi pessoas tentarem. Já vi outras desistirem.

E há sempre uma pergunta que me fica na consciência: e se aquela fosse a última oportunidade que aquela pessoa tinha de ver o familiar com vida?

Para quem está de fora, pode parecer apenas um elevador avariado. Para quem está naquele momento, pode significar muito mais.

E somos nós que acabamos a dar a cara.

Somos nós que explicamos que o elevador não está a funcionar. Somos nós que recebemos a frustração, as críticas e, por vezes, o desespero de quem só quer chegar junto de alguém que ama.

E muitas vezes aceitamos essa revolta porque a compreendemos.

O problema é começarmos a habituar-nos a situações que não deveriam ser normais.

Falamos de milhões em grandes projetos, investimentos e anúncios.

Muitos são necessários. Mas depois deixamos falhar coisas básicas que têm impacto direto na dignidade das pessoas. Não estou a dizer que tudo se resolve com dinheiro. Estou a dizer que, antes de cada decisão, cada prioridade e cada investimento, talvez devêssemos perguntar com mais frequência: como é que isto afeta a pessoa que está do outro lado?

Quantos idosos deixaram de fazer uma visita porque não conseguiram subir as escadas?

Quantas famílias vivem com culpa por não terem condições para cuidar de alguém em casa?

Quantos profissionais levam para casa o peso de situações que não criaram e que não têm poder para resolver?

Quando falamos de saúde, envelhecimento e apoio social, não podemos continuar a falar apenas de camas, vagas, custos e estatísticas.

Por trás de cada número há alguém.

E, às vezes, aquilo que parece uma pequena falha no sistema pode significar um momento que nunca mais volta.

Alexandre Alves