Marítimo sofreu a maior derrota de sempre em Guimarães?
O resultado de 5-0 sofrido esta sexta-feira, no Estádio D. Afonso Henriques, motivou um comentário nas redes sociais sobre um possível recorde
Cinco golos sofridos, nenhum marcado e mais uma noite para esquecer. A derrota do Marítimo, esta sexta-feira, 23 de Outubro, frente ao Vitória de Guimarães, provocou várias reacções entre os adeptos madeirenses.
Num dos comentários publicados no Facebook, foi afirmado que os verde-rubros tinham sofrido a maior derrota de sempre em terreno vimaranense.
Mas será que o resultado representa mesmo um recorde negativo na história do clube? Ou terá havido outras deslocações ao Estádio D. Afonso Henriques com consequências ainda mais pesadas?
A consulta aos registos futebolísticos e ao arquivo do DIÁRIO permitem identificar vários capítulos da rivalidade entre os dois clubes, com resultados particularmente expressivos de parte a parte.
Um deles remonta à temporada 1995/96, quando o Marítimo e o Vitória de Guimarães protagonizaram dois encontros marcados por diferenças consideráveis no marcador.
Na primeira volta desse campeonato, a 23 de Setembro de 1995, foram os madeirenses a impor uma goleada. No Estádio dos Barreiros, o Marítimo, então orientado por Raúl Águas, venceu os vimaranenses por 4-0, com golos de Fernando Pires, Gustavo e Alex Bunbury, além de um autogolo de Quim Berto.
O encontro da segunda volta realizou-se poucos meses depois, no Estádio D. Afonso Henriques, a 10 de Fevereiro de 1996, integrado na 22.ª jornada da I Divisão.
Nessa altura, o Vitória de Guimarães era orientado por Jaime Pacheco e contava com jogadores como Vítor Paneira, Capucho, Ricardo Lopes e Edinho, avançado brasileiro que viria a destacar-se particularmente naquele campeonato.
Foi precisamente Edinho uma das principais figuras do reencontro entre as duas equipas. O avançado assinou três golos, um deles de grande penalidade, numa partida em que os vimaranenses chegaram ao intervalo já com uma vantagem confortável. Ricardo Lopes, Vítor Paneira e Capucho também marcaram.
A contagem final desse encontro é o elemento decisivo para esclarecer a afirmação que circulou nas redes sociais: o Vitória de Guimarães venceu o Marítimo por 6-0, estabelecendo um resultado que permanece como a maior goleada caseira dos minhotos frente à formação madeirense.
Viagem no tempo
Mas, vamos recuar ao dia 10 de Fevereiro de 1996. O Marítimo, então orientado por Raúl Águas, deslocava-se a Guimarães para disputar um encontro importante nas contas do apuramento europeu.
A situação era bem diferente da actual. Os verde-rubros ocupavam o quinto lugar do campeonato, com 36 pontos, mais cinco do que o Vitória de Guimarães, sétimo classificado. Na primeira volta, os madeirenses tinham vencido os minhotos por 4-0, no Estádio dos Barreiros.
A confiança era evidente nas declarações recolhidas pelo DIÁRIO na antevisão do encontro. Edmilson, um dos principais avançados da formação madeirense, não escondia a ambição de regressar à Madeira com os três pontos.
Temos condições para ganhar em Guimarães.
Apesar de reconhecer as dificuldades de jogar no terreno dos vimaranenses, Edmilson salientava que a equipa estava concentrada na conquista da vitória. O encontro era apresentado como um confronto directo entre dois candidatos às competições europeias.
O optimismo, porém, durou pouco. Na edição de 11 de Fevereiro de 1996, o DIÁRIO dedicava amplo espaço à derrota, com uma chamada na primeira página e uma reportagem no caderno de Desporto que não deixava dúvidas sobre o que tinha acontecido.
"Humilhação em Guimarães" era o destaque escolhido para apresentar o desaire, enquanto o jornalista Emanuel Rosa, que acompanhou a equipa madeirense, assinava uma crónica com um título igualmente expressivo: "Apetite vimaranense devora 'leõezinhos'".
O relato descrevia um Marítimo incapaz de contrariar a superioridade do adversário, com enormes dificuldades defensivas e uma exibição que se degradou à medida que o encontro avançava.
Depois de um início desastroso, os madeirenses ainda procuraram reagir, mas as oportunidades desperdiçadas acabaram por agravar a sensação de impotência. No intervalo, a formação de Raúl Águas já estava em desvantagem por três golos.
O pior, contudo, estava reservado para a segunda parte. A crónica apontava a falta de agressividade, os espaços concedidos na defesa e a incapacidade de resposta de uma equipa que, poucos meses antes, tinha imposto uma vitória convincente ao mesmo adversário.
A expressão utilizada pelo jornalista para descrever a segunda metade do encontro era particularmente dura: "Se a primeira parte foi má, a segunda foi deplorável".
O texto terminava com uma observação ainda mais reveladora da dimensão da derrota: o Marítimo podia considerar-se feliz por não ter regressado da cidade-berço com um resultado ainda mais pesado.
Rui Fontes mandou regressar a equipa e aplicou multa
As consequências não tardaram. Ainda em Guimarães, o ambiente nos balneários era descrito como pesado. Os jogadores recolheram às cabinas e não foi possível ouvir as suas declarações no final do encontro.
Entretanto, na Madeira, o então presidente do Marítimo, Rui Fontes, tomava uma decisão imediata. As folgas que habitualmente eram concedidas aos jogadores depois dos encontros realizados no continente ficavam canceladas.
A ordem era regressar à Região nessa mesma noite. "Todos na Madeira já...!", titulava o DIÁRIO na edição de 11 de Fevereiro, dando conta da determinação presidencial e do ambiente de tensão instalado no clube.
No dia seguinte, a revolta de Rui Fontes chegou à primeira página do jornal. Com uma fotografia do dirigente, o DIÁRIO anunciava uma reunião de emergência entre o presidente e o plantel.
"Nunca vi derrota tão humilhante", afirmava Rui Fontes, numa entrevista publicada a 12 de Fevereiro, na qual não escondia o profundo desagrado com o comportamento da equipa.
O presidente considerava que um clube que ocupava o quinto lugar do campeonato não podia apresentar-se daquela forma. Criticava a falta de profissionalismo e entendia que os jogadores tinham a responsabilidade de reagir, embora afastasse a possibilidade de colocar em causa a continuidade do treinador Raúl Águas.
Rui Fontes admitia medidas disciplinares e anunciava uma mudança de atitude, exigindo maior concentração e compromisso até ao final da temporada.
A posição do dirigente não passou despercebida ao plantel. Carlos Jorge, capitão da equipa, reconheceu o desagrado provocado pelo resultado e, numa declaração publicada pelo DIÁRIO, procurou enquadrar a reacção presidencial: "Compreendemos a reacção do presidente".
Mas o caso estava longe de ficar encerrado. Na edição de 13 de Fevereiro, o jornal voltava a destacar o Marítimo na primeira página. Desta vez, já não se tratava apenas da indignação dos responsáveis. Havia uma penalização financeira concreta.
A direcção decidiu aplicar uma multa de cerca de três mil contos aos jogadores, valor correspondente ao prémio de jogo que o plantel e a equipa técnica receberiam em caso de vitória.
O montante seria entregue a uma instituição de solidariedade social, escolhida pelos próprios jogadores. A medida, segundo o relato da época, foi acatada pelo grupo.
Na mesma ocasião, Raúl Águas reuniu com os seus jogadores no Campo da Imaculada Conceição. O treino começou com uma sessão de análise, durante a qual foi visionado um vídeo do encontro disputado em Guimarães.
A intenção era identificar os erros cometidos e evitar que se repetissem. O treinador reconheceu as dificuldades da equipa, mas garantiu que não alteraria os seus métodos de trabalho.
Havia, porém, outro episódio a marcar aqueles dias. O DIÁRIO noticiou que os jogadores, desagradados com a ordem de regresso imediato à Madeira, tinham manifestado o seu protesto de uma forma pouco habitual.
Segundo a reportagem publicada a 13 de Fevereiro, a contestação contribuiu para que o avião da TAP que transportava a equipa do Porto para o Funchal saísse com cerca de 50 minutos de atraso.
O jornal relatava que os jogadores tinham acatado a ordem presidencial, mas discordavam da decisão, até porque alguns contavam passar o fim-de-semana com as famílias no continente.
O protesto provocou o desagrado dos restantes passageiros, que, de acordo com o DIÁRIO, receberam os jogadores a bordo com assobios e apupos.
Entre o regresso antecipado, a reunião de emergência, a multa e a contestação no avião, a deslocação a Guimarães transformou-se num dos episódios mais conturbados daquela temporada.