Esta história precisava de um milagre
O sol entrava pela janela do gabinete onde as médicas de serviço me atenderam, sei que era uma terça-feira e que cheguei ao hospital depois de ser impossível ignorar o que me estava acontecer. “Com estes resultados nas análises e chegou aqui sozinha?”, foi a primeira a atender-me, uma mulher baixa e feliz por ter abraçado a arte de fazer nascer crianças e ser essa a sua profissão. Não tinha boas notícias e, da história, a anemia severa era a menos relevante para o que seria a minha vida dali em diante. “Tem filhos?”, perguntou-me num sorriso que, nos médicos, antecede o irremediável e, no caso que tinha pela frente, era a certeza de que eu não os ia ter.
Eu tinha 43 anos e aquele foi o último dia em que me senti nova, daquela maneira que nos sentimos novos por termos todas as possibilidades de futuro e de felicidade, as que queremos, mas também as que não queremos e a outras todas que nem sequer sabemos que existem e podem ser nossas. Se eu desejava ser mãe? Fugira da ideia durante anos e incomodava-me aquelas perguntas invasivas do “então quando é que se despacham?” E não queria responder, nem dar satisfações e muito menos contar que, às vezes, sonhava com um filho que nascia prematuro ou eu acordava antes, nunca se concretizava como nunca se concretiza seja o que for nos sonhos.
Também me atormentava e perseguia a ideia de legar os meus genes defeituosos a essa pessoa, que não existia e pela qual me sentia responsável. A minha história no hospital não começou naquela terça-feira depois do almoço, não era a primeira vez que eu via aquele sorriso dos médicos antes do diagnóstico. “É um linfoma de Hodgkin e vamos começar a quimioterapia depois de amanhã? Não, não vai ficar careca, terá apenas alopécia temporária”. A conversa foi mais ou menos esta e eu pensei que, depois disso, nada seria tão grave, nem seria sequer justo voltar ao mesmo hospital, agora mais velho e sombrio, para sair de lá despedaçada.
As médicas sossegaram-me, não era cancro. Eu não corria risco de vida e, quando me habituasse à ideia, os meus dias seriam melhores, serenos e calmos. “Há muitas mulheres felizes e sem filhos” e eu, de facto, não estava em perigo, haveria de sobreviver nas semanas e nos meses seguintes quando, por teimosia, tentei agarrar uma possibilidade que já não existia. Se eu não corria risco, a filha que imaginava a correr no parque com um vestido vermelho estava prestes a desaparecer nessa espécie de buraco negro do coração onde enfiámos os nossos impossíveis. Não sei se sonhei tanto e, com tanta força, que aquelas mulheres amáveis que me atenderam no dia em que deixei de ser nova e despreocupada fizeram o que puderam por mim.
Talvez se conseguisse, havia histórias de sucesso, mas não como a minha. E tentou-se tudo, uma operação limitada, depois um tratamento inovador e caro. E eu, que não gosto de pesquisar doenças, nem de falar delas, corri tudo o que existia na Internet até o histórico do Google ser só sobre miomas, uma crueldade que o meu corpo produzira e que me afastava da menina de tranças de negras, que teria os olhos do pai e iria encher a vida de riso e alegria e felicidade. A criança de tranças e vestido vermelho, a amuar e a subir-me para o colo foi a forma que dei à esperança. Até lhe encontrei uma voz, um cheiro de água de colónia e uma pele de veludo, por ela ia inventar histórias e escrever livros e escolher vestidos e laços para o cabelo nas lojas.
O sonho morreu na sala de operações um ano depois, quando, sem outro remédio, deixei lá um bocado de mim. Eu sobrevivi como as médicas previram naquela tarde. A filha que vivia dentro da minha cabeça e no meu coração morreu, deixou de ter os olhos do pai e de subir para o colo e eu não escrevi histórias para ler antes de dormir. Esta história precisava de um milagre e eles não acontecem assim.