A pós-verdade
Isto a que se chama vida às vezes não é nada confortável, mas temos de saber desafiar-nos e não cair na tentação de viver num casulo, com medo do que não dominamos e rejeitando à partida o que não conhecemos. Às vezes confrontamo-nos com absurdos, aquilo que catalogamos de anormalidades, pois saem completamente daquele porto seguro que é o nosso histórico, o nosso conhecimento, a nossa norma.
É onde estou por estes dias, depois de ouvir falar do conceito de pós-verdade. Juro que foi isto que ouvi, não é mentira nenhuma! E não, não é o que se segue à verdade, seja lá também o que isto for; a minha não é seguramente a única que existe.
Sem querer gastar muitos caracteres com isso, até porque não posso, exemplifico: - tenho como cientificamente provado que o Benfica é o melhor clube do mundo mas há quem entenda que isto não é verdade. Estão errados, mas a tolerância exige-me que aceite outras opiniões…
A pós-verdade também não é isto.
No fundo, no fundo é uma mentira que, se dita muitas vezes e se for fundamentada não em factos mas em crenças se transforma em verdade.
Vivemos, aparentemente, neste tempo, onde curiosamente, ao mesmo tempo, se diz que a verdade não deixou de existir, mas que esta é de tal maneira inconveniente ou desconfortável que passou a ser substituída pela crença. E a crença, mesmo sendo desmentida pela realidade, vale como verdade. Porque o que mais importa é o conforto, o resto dá muita maçada. Estão confusos?
Talvez se pensarem no Vosso dia-a-dia fiquem menos. Quando se diz que um madeirense só paga 79€ por uma viagem de ida e volta ao continente português isso é mentira, porque são os nossos impostos que cobrem a diferença.
Quando ocupamos uma qualquer praça com umas tendas e dormimos em conchinha nos intervalos de uns gritos de ordem histriónicos e sem sentido, podemos achar que estamos a contribuir para resolver alguma coisa mas se não queremos olhar para a base da questão, não há Zeca Afonso que nos valha.
Como, no entanto, tudo isto nos é vendido de outra forma, repetidamente e com enorme convicção, acaba por ser interiorizado dessa maneira, até porque as pessoas maioritariamente querem acreditar nas pós-verdades.
O pior de tudo é que vamos adormecendo ao longo do tempo, embalados por estas cantigas da pós-verdade. Talvez não fosse mau começar a acordar e relembrar conceitos mais antigos, como aquele de chamar os bois pelos nomes. Assim talvez se conseguisse poder dizer que a pós-verdade é mesmo mentira…