Resposta às tias de Marta Caires sobre C.A.S.A Lda. E outras histórias

Tenho 82 anos e sou assinante deste Diário há muitos anos. Costumo ler as suas crónicas e acho algumas engraçadas, mas houve uma, já há algumas semanas, de que não gostei.

Senti-me atingido, visto o meu pai ter sido sócio fundador das camionetas de Santo António. Infelizmente, o meu pai já não se encontra entre nós, mas cá estou eu para o defender.

Foi escrito que era frequente faltar os travões às camionetas (não é verdade), que chovia dentro, que os vidros não aguentavam fechados e estavam sempre a abrir, e que os estofos estavam rasgados.

Sobre os travões, se calhar, as suas tias fizeram confusão. Com o piso inclinado e molhado, facilmente a camioneta deslizava e caía dentro das levadas, mais frequentemente na chamada curva do “André”, perto do cemitério. Era muito fechada e estreita, muito difícil de fazer a manobra à primeira tentativa, o que resultava em muita tinta azul e amarela na parede.

Sobre chover dentro: as camionetas, nesse tempo, tinham as carroçarias feitas de madeira e, devido ao mau estado das estradas, era natural aparecer algum buraquinho.

E sobre os vidros: o passageiro da frente fechava o vidro, o que ia atrás abria porque tinha calor e, claro, neste vai e vem, criavam-se folgas e eventualmente estragavam-se.

Quanto aos bancos rasgados, era algum passageiro. Como represália, os rasgava e cortava com a navalha ou os furava com o cigarro.

O meu pai comprou a sua primeira camioneta em 1930, e colocou o seu nome na mesma: “Granito”. Começou a fazer viagens para as zonas altas, porque era natural de lá. Quando encontrava passageiros em dificuldades com compras, ou idosos com bengala, saía da camioneta para os ajudar a entrar na viatura. Hoje em dia, quem faria o mesmo?

Só seguia marcha estando todos os passageiros sentados. Hoje em dia, mal se entra no autocarro, o condutor nem espera que a pessoa se sente, deixando os passageiros à sua sorte, mesmo os mais velhos!

A certa altura, começou a haver a caça à multa, por tudo e por nada, às empresas mais fracas, até que as mesmas ficaram em grandes dificuldades. Eventualmente, o Estado tomou conta dessas empresas de mão beijada.

Lembro-me de que chegaram a multar uma camioneta por fazer fumo a mais, no valor de 500 escudos. Essa mesma estava parada na garagem e nem tinha saído nesse dia.

Fomos reclamar, mas disseram que se calhar o polícia se tinha enganado na data. Conclusão: “paga e não bufa”! Para mostrar serviço, multou ao calhas.

Os motoristas que faziam as viagens para o Curral das Freiras, na estrada antiga, eram considerados uns heróis. A estrada era estreita, com muitas curvas e contracurvas. De um lado, rochas a cair; do outro, um abismo com centenas de metros.

Quando encontravam algum carro pelo caminho, tinham de fazer marcha atrás, de pé, com a cabeça fora da janela, e com o bilheteiro, a ajudar. A camioneta só tinha um espelho do lado de dentro. Hoje em dia, têm cinco: dois fora e três dentro. Qualquer erro na condução e todos iam bater ao fundo da ribeira do Curral.

Gostava um dia de ter o prazer de a conhecer pessoalmente e contar o resto das minhas histórias, enquanto tenho a memória fresca.

Não estou zangado consigo. Apenas escrevo para dar resposta ao que as suas tias lhe contaram.

Agora sou eu que conto as histórias aos meus filhos e netos, porque já não tenho tias.

Jorge R.T.G.