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Ser uma coisa e o seu contrário

Pode uma coisa ser e não ser, em simultâneo? Vários pensadores refletiram sobre esse desafio. Também eu divaguei sobre esse dilema por causa das afirmações da Sr.ª Secretária Regional de Educação, Ciência e Tecnologia, da passada segunda-feira, à margem do seminário sobre os 40 anos da Lei de Bases, em que afirmou que “A falta de professores é um problema estrutural que exige respostas adequadas, sobretudo perante o envelhecimento da classe docente e a escassez de profissionais em determinadas áreas”. Apesar de acertadas, estas afirmações contradizem claramente a posição da Secretaria, que reiteradamente garante que a RAM não tem falta de professores. E o facto de haver poucos alunos sem professor não significa que não faltem os cerca de 200 docentes de que fala o SPM para que as escolas deem a resposta que uma educação de qualidade exige. Sem eles, faltam apoios especializados e aulas de recuperação para alunos com dificuldades, e encerram-se projetos criativos e desportivos, entre tantas outras perdas.

Quantas vezes tem sido o Sindicato dos Professores da Madeira acusado de anunciar desgraças que não correspondem à realidade educativa regional? Alguns políticos têm, mesmo, recorrido a uma criatividade alegórica surpreendente, vendo nos dirigentes do SPM o irresponsável Pedro da história do Pedro e o Lobo, ou comparando-nos ao pessimista Filipinho, amigo de Mafalda, a otimista, que anuncia desgraças que nunca chegam. Têm razão, nesta ilha encantada não há mal que pegue.

No entanto, num momento solene, a Sr.ª Secretária profere palavras que mais parecem retiradas do tempo de antena ou de um cartaz do SPM, numa revelação digna do “Eureka” de Arquimedes.

Pois não há dúvidas: a falta de professores é um verdadeiro problema; é-o em qualquer perspetiva, com especial destaque para “o envelhecimento da classe docente”, como reconheceu a Sr.ª Secretária. Os sinais estão em qualquer estudo sobre os docentes. Alguns exemplos:

· A peça do JM do dia 16, onde nos deparamos com a triste constatação de que só 25 dos 307 professores estão “ausentes das escolas” por responsabilidades parentais; pelo contrário, 258 estão doentes, retrato de uma classe envelhecida e desgastada.

· O estudo “Professores à lupa”, do EDULOG, da Fundação Belmiro de Azevedo.

· O “Questionário de Saúde Docente”, publicado na revista Psicologia, sobre mais de 5 000 professores portugueses.

· O Estudo sobre o Envelhecimento e o Desgaste dos Docentes da RAM, promovido pelo SPM com investigadores do Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Louvo a coragem de a Sr.ª Secretária ter assumido frontal e publicamente o mais sério problema com que se debaterá a educação da RAM nas próximas décadas. Não se pode negar a realidade. Tentar esconder o problema da falta de professores será sempre um gato com rabo de fora.