Cada fração de aquecimento global aumenta impactos e riscos, alerta ONU
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alertou hoje que cada fração de aumento da temperatura global aumenta os impactos e os riscos climáticos, e pediu "todos os esforços" para controlar o aquecimento.
"Cada fração adicional de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5°C [em relação aos valores médios da era pré-industrial] aumentam os impactos e os riscos climáticos, como as inundações mortais, as ondas de calor e os incêndios florestais que assolaram muitas nações este ano", disse Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA, a propósito do relatório anual da agência da ONU sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE).
O documento hoje divulgado alerta que a meta de conter o aquecimento global num nível abaixo de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais já foi ultrapassada, e que o mundo deve agora minimizar a magnitude da ultrapassagem e tentar regressar ao limite de 1,5ºC até final do século.
"Isto é possível", disse Inger Andersen, recordando "histórias de sucesso" que demonstram que as emissões de GEE podem ser reduzidas rapidamente.
O relatório da ONU faz uma análise de um cenário em que não se ultrapassa muito os 1,5ºC, mas também diz que, se as políticas atuais se mantiverem, o aquecimento global pode chegar aos 2,8ºC acima dos valores pré-industriais ainda neste século e continuar a aumentar.
E mesmo se todas as promessas e compromissos dos países para baixarem as emissões de GEE forem cumpridas o aquecimento vai até aos 2,6ºC, podendo descer para 2,1ºC num cenário muito otimista.
Os resultados agora apresentados, diz a ONU, são piores do que as projeções do ano passado, nomeadamente pela saída do Estados Unidos do Acordo de Paris sobre redução de emissões de GEE.
Sem ações urgentes, manter o pico de aquecimento abaixo de 1,7ºC a 1,8°C "tornar-se-á rapidamente impossível", alerta a instituição no relatório, acrescentando que regressar ao limite de 1,5ºC é possível principalmente porque há provas em todo o mundo de que as políticas climáticas podem reduzir, e já reduziram, as emissões.
Apesar de os sucessos estarem concentrados em setores, países e períodos específicos, a ONU dá como exemplo políticas no setor elétrico que reduziram emissões em 9%, ou instrumentos económicos que alcançaram reduções entre 5% e 13%.
"Chegar a uma trajetória de ultrapassagem de 1,5°C com o limite mais baixo possível exige replicar, ampliar e sustentar estes sucessos", refere o relatório, que recorda que as nações concordaram em triplicar a capacidade de energia renovável e travar e reverter a desflorestação, entre outras medidas, e que a realidade é que o caminho está na "direção errada".
Segundo o PNUMA, se os cenários políticos atuais projetam que algumas emissões estabilizarão até 2030, nenhum deles mostra reduções a ocorrer no ritmo e na escala necessários para minimizar a magnitude e a duração da ultrapassagem de 1,5°C.
No relatório "Emissions Gap Report 2026" são traçados vários cenários, metas e estimativas, desde o aumento da energia renovável à redução do uso do carvão, petróleo e gás no fornecimento total de energia ou da redução das emissões de metano.
Mas o documento adverte que para um cenário menos mau acima dos 1,5ºC são necessários cortes rigorosos e urgentes nas emissões e a remoção de dióxido de carbono numa escala cada vez maior, algo como 320 gigatoneladas, o equivalente a oito anos de emissões deste século.
O relatório conclui que com cada fração adicional de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5°C aumentarão os riscos climáticos como alterações irreversíveis nas calotas polares, no carbono do 'permafrost' (solo permanentemente congelado), ou na circulação oceânica, com graves implicações para a saúde e prosperidade humanas.
A única opção, alerta a ONU, é minimizar a duração e a magnitude da ultrapassagem e estabelecer uma trajetória de retorno credível para 1,5°C até ao final do século.