Obrigado, doutora Filomena

O mundo ficou mais pobre, doutora. Muito mais pobre.

Quando os bons mudam de plano, deixam um vazio que o tempo não consegue preencher.

Guardo a sua voz, as suas gargalhadas e os seus conselhos. Guardo a sua disponibilidade, o seu tempo, a sua preocupação.

Numa terra onde a meritocracia é, tantas vezes, uma metáfora, a doutora foi porta-estandarte do mérito, do valor e da verdade. Nunca se deteve nem se acobardou perante as adversidades, os nomes ou os cargos. A sua integridade não se vergou perante hierarquias e a sua coragem não se mediu pela ausência de obstáculos, mas pela determinação com que os enfrentou.

Ter alguém que acredite em nós, que nos inspire e cuide de nós é uma forma de amor tão rara quanto extraordinária.

A sua exigência era lendária: havia quem visse a tensão arterial subir só de saber que ia ter consulta consigo. Afinal, doutora, nem precisava de nos medir a tensão para a fazer subir!

Sei que nem sempre foi fácil. Mas, se fosse, também não seria para si. A doutora foi uma guerreira da decência, da perseverança e da saúde. Nunca se limitou a exercer uma profissão: honrou-a e dignificou-a, como poucos sabem fazer. Há pessoas que passam pela nossa vida. Outras ficam em nós, muito para além do tempo, da presença e da própria despedida. Muito para além da saudade. Muito para além de um nome gravado numa rua. A doutora será sempre uma dessas pessoas.

Fomos privilegiados, doutora. Profundamente privilegiados por nos termos cruzado consigo e por termos recebido tanto de si.

Obrigado por tanto. Obrigado por tudo.

José Barreto