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Um como os outros

Ponto prévio: não sendo o futebol o meu desporto de eleição, não o ignoro e procuro manter-me a par o suficiente para poder disfrutar de um bom jogo, mas não tenho, nem procuro ter, conhecimentos aprofundados sobre táticas, regras e leis de jogo, quem deve jogar, se o Vitinha (que raio de nome…) é melhor, se Bruno tem outras capacidades, se o João ou o Gonçalo tem os predicados certos para a função a que é destinado pelo treinador. Deixo essas apreciações para os inúmeros comentadeiros que pululam nas televisões jogo após jogo, incidência após incidência, penalti não marcado após penalti mal marcado ou, pior ainda o fora de jogo que o VAR anulou por 5 mm.

Vamos então ao que me traz aqui hoje.

O futebol é um desporto como outro qualquer, parafraseando o actual selecionador nacional nas suas apreciações e, quem sou eu para discordar.

Somos todos uns como os outros, cada um com as suas idiossincrasias, com as suas características, com as suas razões, com as suas emoções, enfim com tudo o que nos diferencia uns dos outros e com tudo o que nos iguala uns aos outros.

Como disse acima, tenho optado por deixar para os ditos especialistas as críticas/comentários sobre assuntos de matéria política e/ou desportiva e transmitir de uma forma mais, ou menos, ligeira, menos ou mais aprofundada, dependendo de quem lê e interpreta, conceitos, ideias, emoções, vivências, tentando suavizar a aspereza de um dia-a-dia cada vez mais difícil.

Há, no entanto, ocasiões em que temos de ter um olhar mais atento e eventualmente crítico em relação a acontecimentos que chamam a nossa atenção colectiva de cidadãos do mesmo País, do mesmo mundo, mesmo não sendo o fenómeno do futebol o que me chame mais a atenção.

A curva da vida assemelha-se a uma curva de Gauss, as variáveis mais distantes da mediana, mais junto às caudas laterais – o nascimento e a fase de desenvolvimento infantil por um lado, e o decrescer da actividade com o avanço da idade por outro. Isto é, nascemos, crescemos, atingimos um pico e decrescemos. Esta é uma realidade em qualquer actividade de qualquer ser vivo, o que torna cada um de nós um como os outros.

Mas, há sempre alguns que se destacam mais do que os outros, deixando de ser um como os outros para serem como cantou Camões:

“aqueles, que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando”.

E esses são especiais, não são como os outros.

Luís Vaz de Camões não é como os outros!

José Saramago não é como os outros!

Amália Rodrigues não é como os outros!

Eusébio da Silva Ferreira não é como os outros!

Não, não estou a compará-los. Não pelo menos como muitos pensarão e à conta disso chamar-me-ão nomes indecifráveis e não repetíveis publicamente.

Podia, inclusivamente, continuar por aí adiante citando nomes de pessoas deste país que por obras valerosas se libertaram da lei da morte, bem como podia citar uma miríade de nomes de outros tantos que não conseguiram se libertar da lei mais democrática de todas, aquela que inevitavelmente um dia atinge todos os seres mortais que irão inexoravelmente cair num esquecimento mais ou menos próximo.

Mas aparecerão sempre uns que não são um como os outros, dando razão a Camões.

Cristiano Ronaldo é uma dessas pessoas. Não é um como os outros.

Um como os outros, igual a tantos outros, é o actual selecionador nacional de futebol.

O actual selecionador nacional poderá vir ter outro estatuto quando a sua seleção ganhar um Campeonato do Mundo. Mas até lá ainda lhe falta um Campeonato da Europa, que já foi ganho por um outro selecionador – Fernando Santos. Ainda lhe falta uma ou duas Ligas das Nações, que Portugal já ganhou com Fernando Santos e Roberto Martinez. Ou seja, o actual selecionador ainda nem chegou ao patamar destes seus antecessores, e para lá chegar ainda tem de aprender que para da lei da morte se libertar tem de saber reconhecer o estatuto dos que já têm o seu nome guardado nessa memória do futuro.

Não sei se o nome de Manuel da Luz Afonso diz alguma coisa aos caros leitores. Coronel do Exército português, foi o selecionador da equipa que conquistou o 3º lugar no Campeonato do Mundo de 1966, que deu a conhecer Eusébio urbi et orbi. O treinador da equipa escolhida por Manuel da Luz Afonso foi o brasileiro Otto Glória. Têm obras velerosas, mas são, cada um deles, um como nós. Julgo que o destino do actual selecionador de futebol será semelhante e que ele não passará de um como os outros. Ao querer fazer-se superior, ao não entender que há pessoas que têm um estatuto diferente dos outros, ao não ter a coragem de dizer à partida que não contava com a presença de CR 7, não o convocando, demonstrou fraqueza de carácter, de humildade, de liderança.

Ao dizer publicamente, quase de forma acintosa, que Cristiano Ronaldo não passa de um como os outros, o actual selecionador atestou uma ignorância absoluta do significado do verso de Camões e no que significa ter nas suas hostes alguém que pelas suas obras valerosas já ganhou o direito a se libertar da lei da morte.

Está, o actual selecionador nacional de futebol, no seu direito não querer contar com ele, de pensar que CR7 já está na fase decrescente da curva da vida.

É um direito que lhe assiste.

O que não lhe assiste, o que não tem direito é de ser acintoso com quem chamou para trabalhar consigo. Se não queria, não fazia teatro para “inglês” ver. Dizia à partida que não contaria com ele para os jogos que tinha pela frente e para os quais prepararia uma equipa diferente.

Mas não o fez! Demonstrou falta de coragem, discernimento e de cultura! Com a conivência e conhecimento do Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, que demonstrou as mesmas falhas!

Daqui a 10, 20, 50 anos, o nome de Cristiano Ronaldo ainda será lembrado, e o nome do actual selecionador de futebol de Portugal não fará certamente companhia ao nome do selecionador da equipa que conquistou o 3º lugar no Campeonato do Mundo de Futebol de 1966, o Sr. Coronel Manuel da Luz Afonso de seu nome.