Esta filha da desordem
O relógio foi parar ao conselho directivo e, quando lá cheguei, o professor de serviço obrigou-me a um discurso sobre cuidado e atenção
Há pessoas que nascem organizadas e existe o contrário, as que, como eu, emergiram na desordem e numa casa onde dava a ideia que, além de nós, viviam lá outros, escondidos nas sombras e muito matreiros. Tão ardilosos que, todos os dias e sem que a minha mãe conseguisse explicar, desapareciam tampas de panelas, peças de roupa e objectos de maior dimensão e até ruidosos como o rádio-gravador que tocou semanas a fio sem que se soubesse onde estava.
Quando se deu o desaparecimento do rádio - tão extraordinário que até nos permitia acertar os relógios pelo sinal horário que se ouvia algures dentro de casa - já a minha mãe tinha desistido de procurar o que deixava de estar à vista. Eu ia escrever o que estava no lugar, mas as coisas não tinham um lugar, tinham, talvez, uma área como o armário da cozinha ou o armário branco. E era tudo o que se podia esperar. O resto era a mesa da cozinha sempre cheia de frascos, a pia com loiça e o saco do pão pendurado na porta e, a meio, entre as coisas, a minha a mãe a praguejar por causa a chave da porta da sala.
As chaves atormentavam muitas vezes a minha mãe, sobretudo nos minutos antes de sair de casa, com o autocarro a apontar no Jamboto e ela a descer a escada a toda a pressa, dois degraus de cada vez e a mandar o meu irmão à frente, a ver se o chauffer - ainda não havia motoristas, só chauffer como em França - aguentava um instante e se lhe dava tempo. O meu irmão vermelho de vergonha, tão aflito com aquela mãe que batia a porta do caminho e entrava pelo ‘horário’ - os autocarros iriam de chegar mais tarde, por aquela altura eram ‘horários - e se sentava, toda sorrisos e agradecimentos antes de afundar nos embrulhos e sacos para a casa de bordados.
Não tardei a perceber que quem vivia num lugar assim e era orientada por uma senhora excêntrica de meia idade - eu nunca conheci outra versão da minha mãe - iria lançar-se no mundo com todos estes encantamentos e desacertos, mais valia habituar-me. E foi o que fiz quando, umas semanas depois de começar as aulas, os lápis de cor começaram a desaparecer, depois a borracha e o apara-lápis até a minha mãe me dizer que ou tomava conta do estojo e mantinha os ocupantes quietos e sem fugas ou ia sem eles para a escola. O meu pai não ganhava para aquilo.
Nos quatro anos da escola primária fui incapaz de manter os ocupantes dentro do estojo, mas aprendi a gerir o que tinha de maneira a ninguém saber que, entre a escola, a venda e a minha casa, as borrachas, as esferográficas e os lápis abandonavam-me e preferiam outro dono. A minha mãe tinha outra teoria e suspeitava que ou dava ou era roubada. A verdade é que a minha régua de 20 centímetros acabou nas mãos de uma outra miúda e eu não reclamei, como, uns tempos depois, decidi que as minhas bonecas estavam melhor cuidadas por uma vizinha. As bonecas ainda passaram uma noite fora antes de uma dona Celina enfurecida me obrigar a resgatá-las.
Quando cheguei ao ciclo preparatório, mesmo à distância de uma viagem de 30 minutos, a desordem seguiu comigo e fez-me perder, numa manhã, o relógio de pulso e o guarda-chuva muito caro, que se dobrava em muitas partes e cabia dentro do saco da TAP que, à falta de melhor, se adaptou à bolsa para as capas de argolas e os livros. O relógio foi parar ao conselho directivo e, quando lá cheguei, o professor de serviço obrigou-me a um discurso sobre cuidado e atenção. Eu nem tentei explicar que morava numa casa onde as chaves se escondiam debaixo das tampas das panelas e era preciso quase uma investigação para descobrir uma t-shirt no monte da roupa por passar.
Também sabia que não me podiam atribuir a responsabilidade pelo estado dos meus cadernos, que mais pareciam rascunhos, onde os apontamentos se misturavam com desenhos, as frases não terminavam e conviviam com o jogo do galo. Embora a minha mãe se esforçasse por me manter arranjada, eu suspeitava que as meias de renda de algodão não se seguravam nos joelhos por motivos semelhantes aos que me tinham feito crescer os pés mais depressa do que o resto do corpo. E que tudo começava naquele caos que se repetia todos os dias, assim que, às seis da manhã, o relógio-despertador ligava as notícias.
Isto foi há 45 anos. Esta semana desapareceu a peça que faz mexer o espremedor eléctrico.