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Foto Miguel Espada/Aspress
Explicador País

Cinco razões que levam Lisboa a declarar guerra às trotinetes

Câmara da capital discute na quarta-feira a suspensão do serviço de trotinetes partilhadas. Perceba o que está em causa

O presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas (PSD), anunciou na quinta-feira, num vídeo na rede social X, que o sistema de trotinetes partilhadas vai ser suspenso na capital. A proposta deverá ser discutida na reunião de Câmara da próxima quarta-feira, dia 21. “Isto é uma vergonha e vai acabar”, afirmou.

A Câmara sustenta que a suspensão se enquadra nos poderes do município para administrar e gerir o espaço público. Moedas lembra que cidades como Paris, Bruxelas ou Nova Iorque seguem o mesmo caminho e espera o apoio do PS, que acompanhou uma proposta semelhante em Braga.

Mas o que levou a autarquia a este ponto?

1. Estacionamento caótico
A Câmara garante recolher mais de mil trotinetes por mês por estarem mal estacionadas. Os veículos condicionam a circulação de pessoas, “afectando particularmente os mais idosos, com mobilidade reduzida, cidadãos cegos, crianças e famílias com carrinhos de bebé”.

2. Um acordo que não resultou
Em 2023, a autarquia fechou um acordo com os operadores para travar o problema, reforçado com uma adenda em Junho de 2025. Mas, segundo Moedas, as remoções aumentaram 40% entre 2024 e 2026, quando “era suposto diminuir”. “Quem não cumpriu o acordo foram as empresas”, acusa.

3. Insegurança
O autarca fala de trotinetes “em contramão, nos passeios” e com duas pessoas ao mesmo tempo, “sem o mínimo de respeito por quem circula no espaço público”. Aponta também “mais acidentes” e o número de menores a usar estes veículos, que classifica como “um problema gravíssimo de segurança”.

4. Fiscalização quase impossível
As trotinetes não têm matrícula e são facilmente abandonadas, com os utilizadores, muitos deles turistas, a “escaparem ao controlo”. Moedas admite que não é possível ter “um polícia municipal atrás de cada trotinete”.

5. Soluções intermédias esgotadas
A Câmara diz já ter testado limitação de frota, zonas de interdição, georreferenciação, lugares próprios de estacionamento, limites de velocidade e reforço da fiscalização e remoção, sem “resultados suficientes”. No primeiro mandato, Moedas conseguiu reduzir para metade o número de trotinetes na cidade, mas o problema, segundo a nota da autarquia, “deixou de ser pontual”.

Carlos Moedas: "Vamos apostar nas bicicletas"

Carlos Moedas justificou hoje a decisão com o número de acidentes e o abandono dos equipamentos. “Neste momento, e perante todos os dados de que dispomos, não nos resta outra opção senão a suspensão do serviço de trotinetes partilhadas em Lisboa”, afirmou. O autarca diz que a decisão já foi comunicada às empresas e que a aposta passa agora pelas bicicletas partilhadas Gira: “já temos duas mil bicicletas, vamos continuar a apostar e isso é para nós o mais importante”. Recorda que deu “uma oportunidade às empresas” para cumprirem as regras, “mas isso não aconteceu”.

PS diz que é o "reconhecimento do falhanço"

Os vereadores socialistas consideram que a suspensão é o reconhecimento do falhanço da política de regulação e fiscalização de Moedas. Recordam que, em Janeiro de 2023, o autarca garantiu que o acordo com os operadores resolvia o problema e que prometeu um Regulamento de Mobilidade Suave Partilhada “que ainda não se conhece”. Há cerca de um ano, lembram, a Câmara incentivou o uso das trotinetes ao integrá-las no passe Navegante, com 200 minutos gratuitos por mês para residentes. “Em menos de quatro anos, passou de anunciar que tinha resolvido o problema a incentivar a utilização das trotinetes e, finalmente, a propor a sua suspensão”, criticam. O PS defende investimento “sério e urgente” na Gira e diz ter sabido da proposta pela comunicação social, aguardando conhecer o conteúdo antes de se pronunciar.

ACP quer referendo

Em paralelo, o Automóvel Clube de Portugal recolheu cerca de 20 mil assinaturas de cidadãos recenseados em Lisboa para um referendo municipal sobre a continuidade das trotinetes partilhadas, quando bastavam cinco mil. As assinaturas serão entregues na segunda-feira à Assembleia Municipal, o que dá início ao processo previsto. A recolha arrancou no início de Agosto junto dos sócios e foi depois alargada às ruas da cidade.