Cónego questiona distribuição da riqueza na Madeira
Manuel Martins alerta para a pobreza e defende que o crescimento económico beneficie toda a população
O cónego Manuel Martins, antigo pároco da Sé do Funchal e de Machico e actual pároco de São Martinho, presentemente afastado das funções por motivo de doença, questiona a forma como a riqueza produzida na Madeira está a ser distribuída pela população, alertando para a persistência da pobreza, das dificuldades habitacionais e da perda de poder de compra de muitas famílias. Numa reflexão escrita na sua rede social a propósito dos mais recentes indicadores sociais, o sacerdote reconhece os progressos económicos alcançados pela Região, mas considera fundamental perceber quem está efectivamente a beneficiar desse crescimento.
"A Madeira cresce. Mas quem está a beneficiar dessa riqueza?", interroga o cónego, tomando como ponto de partida os dados divulgados pelo DIÁRIO, na edição de ontem, segundo os quais cerca de 53 mil madeirenses, correspondentes a 20,5% da população, estavam em risco de pobreza ou exclusão social em 2025, uma proporção superior à média nacional de 18,6%.
Para Manuel Martins, estes números devem "inquietar a Região e obrigar a uma reflexão séria sobre as prioridades da governação", sobretudo quando associados a outros indicadores que revelam dificuldades persistentes nas condições de vida dos residentes.
O sacerdote destaca os dados da Direcção Regional de Estatística da Madeira, que apontam para 23,5% da população a viver em habitações sobrelotadas, quase o dobro dos 12,7% registados a nível nacional. Acrescenta que a privação severa das condições habitacionais atinge 11,3% dos residentes e que 19,7% enfrentam dificuldades financeiras para manter a casa adequadamente aquecida.
Na sua análise, estas percentagens traduzem realidades concretas, desde famílias obrigadas a escolher entre pagar a renda e assegurar uma alimentação adequada até trabalhadores que, apesar de terem emprego, não conseguem encontrar habitação compatível com os seus rendimentos. Refere igualmente os idosos com dificuldades para suportar despesas essenciais e os jovens que adiam a sua autonomia financeira.
Manuel Martins chama ainda a atenção para as famílias que, embora não sejam estatisticamente consideradas em risco de pobreza, vivem sem capacidade financeira para enfrentar despesas inesperadas.
O cónego reconhece que o Governo Regional apresenta indicadores positivos de crescimento económico, receitas públicas e investimento, considerando importante valorizar os progressos alcançados. Contudo, entende que esses resultados devem ser confrontados com a realidade social.
"De que serve uma economia mais próspera se uma parte significativa dos seus residentes continua sem acesso a habitação condigna, alimentação adequada e segurança financeira?", questiona.
Na perspectiva do sacerdote, o debate não deve limitar-se à dimensão do crescimento económico, mas abranger a distribuição da riqueza produzida e os seus efeitos nas condições de vida dos madeirenses.
"Uma economia pode prosperar nos indicadores e, ainda assim, falhar na sua missão social", sustenta, acrescentando que a redução dos indicadores de pobreza, embora positiva, não elimina as dificuldades enfrentadas por quem considera insuficiente o salário ou a pensão para viver com dignidade.
O pároco de São Martinho defende, por isso, que a governação deve assegurar que o crescimento económico se traduza em melhores salários, habitação acessível, maior poder de compra e segurança financeira, evitando que os benefícios da prosperidade fiquem concentrados em determinados sectores.
Para fundamentar esta posição, Manuel Martins invoca a Doutrina Social da Igreja, nomeadamente os princípios da dignidade humana, do bem comum, da solidariedade e da destinação universal dos bens.
Recorrendo também a documentos pontifícios, entre os quais a exortação apostólica Dilexi Te, do Papa Leão XIV, e a encíclica Sollicitudo Rei Socialis, de João Paulo II, sublinha que a atenção aos mais pobres não se deve limitar à caridade individual, exigindo igualmente respostas às causas estruturais da pobreza e da exclusão social.
"A opção preferencial pelos pobres não é apenas um apelo à caridade individual: é também um compromisso com a transformação das condições sociais que perpetuam a pobreza e a exclusão", escreve.
Na conclusão da sua reflexão, o cónego Manuel Martins insiste que o sucesso económico de uma Região deve ser avaliado não apenas pela riqueza gerada, mas também pelas condições de vida proporcionadas aos cidadãos.
"A verdadeira medida do sucesso de uma governação não está apenas na riqueza que produz, mas na vida que proporciona às pessoas", afirma, deixando uma última interrogação: "A Madeira está a crescer, sim, mas está a crescer para quem?"