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O cofre que pode salvar a alimentação mundial

Portugal depositou mais 334 amostras de sementes em Svalbard, elevando para 1.861 os acessos nacionais no cofre que protege a diversidade agrícola mundial contra guerras e catástrofes

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Conhecido como ‘Cofre do Apocalipse’, o Svalbard Global Seed Vault é uma reserva internacional destinada a preservar sementes de plantas utilizadas na alimentação e na agricultura. O objectivo é permitir a recuperação de variedades agrícolas caso as colecções originais sejam destruídas ou perdidas.

Situado no arquipélago de Svalbard, na Noruega, a cerca de mil quilómetros do Pólo Norte, foi inaugurado em 2008. Construído no interior de uma montanha, funciona como uma cópia de segurança das colecções conservadas pelos bancos genéticos de todo o mundo.

O que guarda?

Em Junho de 2026, o cofre ultrapassou 1,4 milhões de amostras, representativas de mais de 6.500 espécies e variedades agrícolas. Entre elas encontram-se sementes de arroz, trigo, cevada, feijão e milho, além de variedades tradicionais e plantas silvestres aparentadas com culturas agrícolas, potencialmente úteis para desenvolver plantas mais resistentes.

Cada amostra corresponde a um lote de sementes com características genéticas próprias, e não a uma semente individual. A instalação tem capacidade para 4,5 milhões de amostras, distribuídas por três câmaras de armazenamento.

Portugal reforça a reserva

Portugal depositou esta terça-feira mais 334 amostras de sementes nacionais em Svalbard, elevando para 1.861 o número de acessos portugueses conservados naquela infra-estrutura do Árctico.

A quinta entrega oficial portuguesa inclui 303 acessos de feijão-comum, 18 de feijão-frade e 13 de milho. A cerimónia contou com a participação do secretário de Estado da Agricultura, João Moura.

A primeira remessa nacional chegou ao cofre em 2018, seguindo-se novas entregas em 2020, 2023 e 2025, que totalizaram 1.527 acessos de culturas como milho, cevada, centeio, trigo e feijão.

Em Portugal, a conservação dos recursos genéticos vegetais é assegurada pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) e pelo Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV). O INIAV participa também num projecto internacional que estuda a longevidade das sementes ao longo de um século.

Desde 2023, Portugal integra o Conselho Consultivo do cofre, participando nos esforços internacionais de conservação dos recursos genéticos para a alimentação e a agricultura.

Porque é necessária uma reserva mundial?

Guerras, incêndios, inundações, avarias técnicas ou falta de financiamento podem comprometer as colecções dos bancos genéticos. A perda de uma variedade agrícola pode significar também o desaparecimento de características importantes, como a resistência a doenças e a tolerância à seca.

Ao conservar duplicados das sementes, o cofre reduz o risco de perda irreversível deste património. A diversidade genética é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, pois permite identificar características úteis para adaptar as culturas ao calor, à escassez de água e a novas doenças.

O cofre não substitui os bancos genéticos, mas complementa o trabalho destas instituições, criando uma protecção adicional para um património essencial à segurança alimentar.

A guerra na Síria demonstrou a sua utilidade

Em 2015, o Centro Internacional de Investigação Agrícola em Zonas Áridas (ICARDA) solicitou a devolução de sementes depositadas em Svalbard. A instituição tinha uma importante colecção em Alepo, na Síria, ameaçada pelo conflito armado.

Em Setembro desse ano, recebeu 38.073 amostras, transportadas em 128 caixas para o Líbano e Marrocos. O material permitiu reconstituir colecções e retomar a multiplicação e distribuição de sementes.

A operação demonstrou a utilidade prática do projecto: material genético ameaçado pela guerra pôde ser recuperado graças às cópias conservadas na Noruega. Nos anos seguintes, o ICARDA continuou a reconstruir as suas colecções e voltou a depositar sementes no cofre.

Como são conservadas as sementes?

As sementes são armazenadas a 18 graus Celsius negativos, temperatura que abranda os processos de deterioração e prolonga a sua viabilidade. As câmaras situam-se no interior de uma montanha, protegidas por espessas camadas de rocha e pelo permafrost, o solo que permanece congelado durante longos períodos.

A conservação depende também de refrigeração artificial e de sistemas de apoio energético. Entre 2016 e 2019, a Noruega realizou obras para reforçar a impermeabilização e melhorar a refrigeração, reduzindo os riscos associados a condições climáticas mais quentes e húmidas.

Quem pode aceder às sementes?

As instituições depositantes mantêm a propriedade das amostras. O sistema, conhecido como ‘caixa negra’, determina que as embalagens permaneçam fechadas e só a entidade que efectuou o depósito possa solicitar a devolução das sementes.

O cofre não distribui directamente sementes a agricultores ou ao público. Cabe aos bancos genéticos gerir a sua multiplicação e eventual distribuição.

Está a salvo das alterações climáticas?

A localização e a construção oferecem condições favoráveis à conservação, mas não tornam a instalação invulnerável. O aquecimento do Árctico aumenta a importância da monitorização ambiental, da manutenção dos equipamentos e das adaptações técnicas.

A longevidade das sementes também varia consoante a espécie e o estado de conservação. Os bancos genéticos têm de acompanhar a viabilidade das colecções e produzir novas sementes quando necessário.

Pode salvar a humanidade de uma catástrofe?

Apesar do nome, o Cofre do Apocalipse não foi concebido para abrigar pessoas ou armazenar alimentos prontos a consumir. Guarda sementes que poderão ajudar a recuperar culturas agrícolas caso as colecções originais desapareçam.

Também não garante, por si só, a sobrevivência da humanidade perante qualquer cenário extremo. A recuperação depende da viabilidade das sementes, da capacidade de as multiplicar e da existência de condições para retomar a produção agrícola.

A infra-estrutura é gerida através de uma parceria entre o Ministério da Agricultura e Alimentação da Noruega, o Centro Nórdico de Recursos Genéticos (NordGen) e a organização internacional Crop Trust.

Num mundo confrontado com conflitos, doenças das plantas e alterações climáticas, preservar a diversidade genética significa manter opções para adaptar a agricultura e proteger a alimentação das gerações futuras.