A propósito das greves

Caros conterrâneos,

Sou mulher, mãe de uma criança pequena que frequenta o ensino público e, talvez por isso, olho para a questão das greves com algum conflito interior. Por um lado, acredito sinceramente que os trabalhadores devem lutar pelos seus direitos, por melhores salários, melhores condições de trabalho e pelo reconhecimento do seu valor. As greves surgiram precisamente para isso e, ao longo da história, permitiram alcançar direitos que hoje muitos consideram garantidos. Não tenho qualquer dúvida quanto à legitimidade dessa luta.

Mas depois existe a realidade do dia a dia, a realidade de quem tem filhos, horários para cumprir, trabalho para fazer e poucas redes de apoio. E é aí que começo a questionar algumas coisas.

Talvez seja apenas uma perceção minha, mas parece-me que muitas greves acontecem estrategicamente em vésperas de fins de semana, feriados ou pontes, sendo mais raro vê-las marcadas aleatoriamente a meio de uma semana sem qualquer ligação a uma oportunidade de prolongar o descanso. E quando olho para o número de greves que se realizam nas escolas da função pública, confesso que por vezes me pergunto se não estaremos a confundir luta com rotina.

Porque, no fim de contas, quem é que está realmente a sentir o impacto destas paralisações? O Estado, que nesse dia paga menos salários e até poupa em algumas despesas? Os trabalhadores que aderem à greve e que, em muitos casos, acabam por transformar o dia numa espécie de mini-férias? Ou serão as crianças que chegam à porta da escola e encontram os portões fechados, e os pais que trabalham no sector privado e não podem simplesmente telefonar a dizer que não vão aparecer porque o filho ficou sem aulas?

Esses pais não fazem greve. Esses pais contam com a boa vontade dos colegas, com a compreensão das chefias, com os avós quando existem, ou então levam as crianças para o trabalho numa tentativa quase acrobática de conciliar responsabilidades. E as crianças, que não têm culpa de nada, perdem mais um dia de aprendizagem, mais um dia de rotina, mais um dia de estabilidade.

Há algo de irónico em tudo isto. Falamos constantemente da necessidade de melhorar a educação, preocupamo-nos com o aproveitamento escolar, com a falta de professores, com os resultados, com o futuro das novas gerações, mas depois aceitamos com alguma normalidade que aqueles que menos poder têm para influenciar o conflito sejam, tantas vezes, os que mais sofrem as suas consequências.

E talvez seja isso que mais me incomoda. Não a greve em si, porque continuo a acreditar que é um direito fundamental, mas a sensação de que, em alguns casos, os principais prejudicados acabam por ser precisamente aqueles que não fazem parte da negociação. Enquanto mãe, custa-me olhar para este cenário e não sentir que algo está errado quando uma luta legítima deixa tantas vezes as crianças pelo caminho.

Diz-se frequentemente que a educação está doente. Eu diria que sim. E talvez um dos sintomas seja este ciclo quase permanente de conflito, em que todos afirmam lutar pela escola pública, mas onde, demasiadas vezes, quem fica sem voz e sem escolha são precisamente os alunos.

Andreia Jesus