ONU alerta que acções israelitas ameaçam segunda fase de cessar-fogo
As Nações Unidas (ONU) alertaram hoje que as políticas do Governo israelita têm facilitado uma série de "tendências destrutivas" que ameaçam o progresso da segunda fase do acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza.
No debate trimestral do Conselho de Segurança da ONU sobre a situação em Gaza, o coordenador especial das Nações Unidas para o Processo de Paz no Médio Oriente (UNSCO, na sigla em inglês), Ramiz Alakbarov, considerou que o enclave palestiniano atravessa um "momento de profunda oportunidade e de considerável risco".
Apesar de vislumbrar um potencial ponto de viragem para Gaza, Alakbarov frisou que muitas incertezas permanecem no enclave, além de um "desmoronamento contínuo na Cisjordânia ocupada" e de uma região mergulhada em tensões.
"As políticas do Governo israelita têm facilitado uma série de tendências destrutivas: rápida expansão dos colonatos e das infraestruturas relacionadas, criação e legalização de postos avançados, demolições e deslocações generalizadas, declarações de 'terras estatais', aprofundamento das restrições de movimento e acesso e expansão dos limites municipais", descreveu.
A violência persistente e extrema dos colonos na Cisjordânia, frequentemente acompanhada ou apoiada pelas forças de segurança israelitas, continua a inflamar as tensões, a deslocar palestinianos à força e a agravar a instabilidade, explicou.
Tendo esse cenário em conta, o representante da ONU expôs as graves consequências das políticas de Telavive: "Aprofundamento da ocupação, crescente fragmentação do espaço palestiniano e reforço da contiguidade territorial dos colonatos".
Alakbarov denunciou igualmente que o Exército israelita continua com operações militares em Gaza, apesar do cessar-fogo em vigor desde 10 de outubro de 2025, incluindo ataques aéreos e bombardeamentos que resultaram na morte de centenas de palestinianos desde o início da trégua.
"Em última análise, estas medidas estão a minar ainda mais as perspetivas de paz e o estabelecimento de uma solução de dois Estados. A menos que sejam abordadas com urgência, poderão também comprometer o progresso na implementação da segunda fase do acordo de cessar-fogo", alertou o coordenador.
Alakbarov acusou também Israel de violações flagrantes do direito internacional e dos privilégios e imunidades das Nações Unidas devido aos recentes ataques contra instalações da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinianos (UNRWA, na sigla em inglês) em Jerusalém Oriental.
Soma-se ainda o facto de a Autoridade Palestiniana continuar a enfrentar uma crescente crise fiscal, potenciada por Israel.
Quase 2,5 biliões de dólares (2,1 mil milhões de euros) em impostos aduaneiros continuam retidos por Israel, denunciou hoje a ONU.
O coordenador da UNSCO indicou que o povo de Gaza está pronto e ansioso por um futuro melhor e mais estável e, para isso, apelou à comunidade internacional que se mantenha firme no compromisso coletivo de ajudar a garantir essa possibilidade para palestinianos e israelitas.
Na reunião de hoje estiveram presentes dezenas de Estados-membros da ONU, incluindo Portugal, mas também os representantes da Palestina e de Israel junto das Nações Unidas.
O diplomata palestiniano, Riyad Mansour, instou Israel a "abandonar os seus planos de deslocar e substituir à força o povo palestiniano em toda a Palestina ocupada".
O embaixador defendeu também que a Palestina deve ser central e plenamente representada em qualquer processo que determine o seu futuro, referindo-se ao plano que Washington delineou para o futuro de Gaza.
Por outro lado, o embaixador israelita, Danny Danon, insistiu no desarmamento completo do grupo islamita palestiniano Hamas para que se avance no plano de paz em Gaza.
"Nenhuma reconstrução económica poderá ocorrer enquanto o Hamas se mantiver armado. Nenhum futuro civil pode existir enquanto um exército terrorista controlar Gaza. Uma organização terrorista genocida não deve possuir armas. O Hamas compreende esta realidade. É por isso que adia, é por isso que engana", afirmou.
A segunda fase do plano de paz, impulsionado pelos Estados Unidos, prevê, entre outros aspetos, a desmilitarização do enclave palestiniano e o estabelecimento de um governo tecnocrático sem representação do Hamas.