O que é pago aos jornalistas é uma indignidade

Os números são claros e objectivos. Em Portugal, um professor no início da sua carreira aufere um salário mensal de 1.704 euros. Já um jornalista, também em início de carreira, recebe apenas 903 euros — um valor inferior ao salário mínimo nacional. Esta discrepância é profundamente reveladora da forma como o jornalismo tem sido desvalorizado ao longo dos anos.

Mais grave ainda é observar a progressão salarial. De acordo com a tabela salarial dos jornalistas, são necessários entre 31 e 33 anos de trabalho para alcançar um vencimento de 1.691 euros. Ou seja, só após mais de três décadas de experiência, responsabilidade e dedicação, é que um jornalista ganha praticamente o mesmo que um professor recebe logo no início da carreira.

A precariedade é a regra. Estágios mal remunerados, recibos verdes, contratos a prazo e salários baixos empurram muitos jornalistas para fora da profissão. Os que permanecem, por vocação ou resistência, pagam um preço elevado em desgaste, insegurança e frustração.

Em tempos de instabilidade política, marcado por crises, desconfiança nas instituições, polarização do discurso público e proliferação de desinformação, o escrutínio do poder enfraquece e o espaço para abusos, populismo e manipulação, cresce ainda mais com um jornalismo fragilizado.

É urgente reconhecer que sem melhores salários e condições de trabalho não há democracia saudável. Ignorar esta realidade é aceitar um futuro em que a informação perde qualidade e a sociedade perde capacidade crítica.

Carlos Oliveira