Arquivo de gelo "único no mundo" inaugurado na Antártica
Um arquivo de gelo "único no mundo", instalado numa gruta escavada na Antártica sob nove metros de neve, foi inaugurado hoje, para servir gerações futuras de cientistas que pretendam desvendar os mistérios do passado.
"Este é um dia muito importante para nós, pois estamos a trabalhar neste projeto há quase dez anos", disse Anne-Catherine Ohlmann, diretora da Fundação Ice Memory (Memória do Gelo), a criadora do projeto, em declarações à agência noticiosa France-Presse.
Na gruta situada a uma altitude de 3.200 metros, com 35 metros de comprimento, cinco de altura e cinco de largura, estão armazenadas dezenas de caixas com gelo de montanhas europeias.
As últimas caixas, com cerca de um metro de comprimento e 40 centímetros de largura, foram colocadas no local hoje, em direto, durante uma conferência 'online' com jornalistas de todo o mundo.
Segundo a AFP, as primeiras amostras de gelo armazenadas na gruta a aproximadamente -52 graus Celsius (°C) são do Col du Dôme, no maciço do Monte Branco, tendo sido recolhidas em 2016, e do cume do Grand Combin, nos Alpes suíços, visitados no ano passado.
Estas 1,7 toneladas de gelo foram transportadas em caixas refrigeradas a -20°C num quebra-gelo italiano entre outubro e dezembro, o tempo necessário para atravessar os mares e oceanos da Europa até ao Polo Sul.
Outras amostras chegarão em breve, dado que a Ice Memory já participou em vários projetos de perfuração, principalmente no Cáucaso, nos Andes e nas montanhas Pamir, no Tajiquistão, onde foram extraídos em setembro, a uma altitude de 5.810 metros, dois blocos de gelo com aproximadamente 105 metros de comprimento cada.
A temperatura natural da gruta de -52°C permite que as amostras se preservem sem o recurso a meios artificiais e está localizada na estação de investigação franco-italiana Concordia, que segundo a fundação, está "bem preservada das alterações climáticas e do degelo".
Graças à perfuração profunda, estas camadas de gelo comprimido ao longo de séculos, talvez milénios, podem fornecer informações sobre a queda de neve, as temperaturas, a atmosfera e o pó do passado.
"Estimamos ter pelo menos décadas, senão séculos, antes de chegar ao ponto em que os nossos núcleos de gelo derretam", afirma Anne-Catherine Ohlmann.
A preservação destas amostras é muito importante face ao delego dos glaciares. Um estudo publicado na revista Nature Climate Change em dezembro indicava que milhares de glaciares desaparecerão todos os anos durante as próximas décadas devido às alterações climáticas provocadas pela atividade humana.
O ano de 2025 foi o terceiro mais quente alguma vez registado a nível global, anunciaram hoje o observatório europeu Copernicus e o Instituto da Terra Berkeley, dos Estados Unidos, acrescentando que 2026 deverá manter níveis historicamente elevados.
"Estamos numa corrida contra o tempo para salvar este património antes que desapareça para sempre", disse hoje durante a conferência Carlo Barbante, climatologista italiano e vice-presidente da Fundação Ice Memory.
O projeto foi lançado em 2015 pelo Centro Nacional de Investigação Científica francês (CNRS), pela Universidade Ca' Foscari de Veneza, em Itália, e pelo Instituto Suíço Paul Scherrer, entre outros.