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Fact Check Madeira

Será que os resultados das coligações na Madeira são sempre desastrosos?

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O desafio que o líder do PS endereçou a quatro partidos da oposição (JPP, PAN, Iniciativa Liberal e BE) para um entendimento nas prováveis eleições regionais antecipadas na Madeira não foi bem recebido, nem pelos destinatários nem pela generalidade das pessoas que comentaram o assunto nas redes sociais. Numa publicação associada a uma notícia do DIÁRIO, um cidadão refere que este tipo de ‘casamentos’ políticos “só fazem perder eleitores”, pelo que recomenda aos dirigentes que “tenham juízo” e evitem essas opções. Será que as coligações dão sempre mau resultado na Madeira?

Desde que há democracia, na Madeira já houve coligações de direita, de tendência de esquerda e mistas, tanto em eleições autárquicas como em legislativas regionais. O cidadão que considera que os partidos só perdem eleitores com este tipo de ‘geringonças’ não especificou se se referia apenas a eleições regionais, pelo que optámos por fazer uma comparação global dos resultados nas principais eleições em que houve coligações, mais concretamente nos escrutínios para a Assembleia Legislativa da Madeira e para a Câmara Municipal do Funchal.

Assim, o primeiro ensaio de acordo bipartidário teve lugar nas eleições autárquicas 1989, com uma lista conjunta do PS e do CDS, encabeçada por Emanuel Jardim Fernandes, que obteve 19.013 votos, quase o dobro dos votos que tinham conquistado em listas separadas nas eleições de 1985. A denominada coligação ‘Pelo Nosso Funchal’ elegeu quatro vereadores e fez tremer o PSD na CMF, que ainda assim continuou no poder, com cinco elementos na vereação, incluindo o presidente João Dantas.

A segunda experiência de coligação teve lugar em 2001, em que o PS e o CDS voltaram a juntar-se com o objectivo de conquistar a Câmara do Funchal. O cabeça-de-lista foi o então líder socialista, José António Cardoso, Não foi propriamente uma coligação bem-sucedida, pois não só a lista do PSD liderada por Miguel Albuquerque ganhou com maioria absoluta (55,6%) como a coligação PS/CDS registou menos 4.578 votos do que os dois partidos tinham somado em listas separadas nas eleições de 1997.

Resultado completamente diferente teve a coligação ‘Mudança’, que se apresentou às eleições autárquicas de 2013 com o então independente Paulo Cafôfo como cabeça-de-lista. Pela primeira vez a lista do PSD, liderada por Bruno Pereira, perdeu as eleições na maior autarquia da Madeira, tendo a coligação ‘Mudança’ obtido mais 5.182 votos do que os cinco partidos que a compunham (PS, BE, PND, MPT, PTP e PAN) tinham conseguido em listas separadas nas eleições autárquicas de 2009.

Nas eleições autárquicas seguintes, realizadas em 2017, Cafôfo voltou a liderar uma coligação, a qual foi rebaptizada de ‘Confiança’ e teve a sua composição alterada (PS, BE, JPP, PDR e Nós Cidadãos). Uma aposta que se revelou novamente vencedora e que teve a sua votação reforçada com mais 2.475 votos do que nas eleições anteriores.

O PSD só voltaria a conquistar a Câmara do Funchal em 2021, através de uma coligação com o CDS, designada ‘Funchal Sempre à Frente’. Essa lista, encabeçada por Pedro Calado, chegou aos 26.841 votos, mais 4.051 votos do que as listas separadas do PSD e CDS tinham alcançado em 2017. A derrotada nessas mesmas eleições foi a segunda versão da coligação ‘Confiança’ (PS, BE, PAN, MPT e PDR), liderada por Miguel Silva Gouveia, apesar de ter perdido apenas 96 votos face às eleições de 2017.

Quanto a eleições legislativas regionais, a primeira coligação surgiu em 2015. Foi um projecto do então líder socialista, Victor Freitas, que juntou PS, PTP, PAN e MPT. Foi a união de esforços políticos menos frutuosa até hoje. A coligação registou apenas 14.574 votos, menos de metade do que os quatro partidos integrantes tiveram nas eleições de 2011. Elegeu apenas 6 deputados, quando as mesmas forças tinham 11 deputados no mandato anterior.

Em eleições regionais, entre grandes partidos, apenas houve mais uma coligação. Aconteceu no escrutínio de 24 de Setembro de 2023, em que PSD e CDS fizeram uma lista conjunta e somaram 58.399 votos, menos 6.295 votos do que tiveram nas eleições de 2019 em listas separadas. O PSD teve o mesmo número de deputados (21) do que no escrutínio anterior, ao passo que o CDS teve menos um (passou de três para dois deputados). Em consequência, o Governo Regional teve de procurar o apoio de mais um deputado (PAN) para garantir a maioria absoluta no parlamento madeirense.

Em jeito de balanço, concluímos que as coligações não têm sido bem-sucedidas em eleições regionais. Mas nas eleições autárquicas no Funchal tanto o PSD como o PS já tiveram bons resultados nos entendimentos pré-eleitorais. Não se pode, pois, concluir, que as coligações sejam fatalmente perniciosas para os partidos na Madeira.

"Os casamentos [políticos] só fazem perder militantes e eleitores. Por isso, tenham juízo" - comentário no Facebook