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Um Homem Inquieto

Morreu um democrata e socialista que dedicou uma grande parte da sua vida à defesa da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos.

O seu último artigo, publicado a 26 de agosto, na véspera do seu internamento, exorta à nossa capacidade de vermos para além da nossa casa, da nossa rua, da nossa Região, País ou Continente. Profundamente preocupado com a situação no Afeganistão, Jorge Sampaio anunciou nesse artigo que a Plataforma Global para os Estudantes Sírios, por si criada em 2013, alargaria o seu âmbito de ação e lançaria um programa de emergência de bolsas de estudo e de oportunidades académicas para jovens afegãs. Aos 81 anos demonstrava, uma vez mais, o seu compromisso para com a solidariedade como imperativo ético. E lembra-nos que «(…) a solidariedade não é facultativa, mas um dever que resulta do artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos», e exorta para que «Façamos uma vez mais prova de que sabemos estar à altura das nossas responsabilidades.»

Foi sempre defensor de que o respeito pelos Direitos Humanos deve nortear a forma como somos em comunidade na medida em que são o «hardcore fundamental que constitui a base da democracia». Numa entrevista ao jornal Público defendeu que vivemos «tempos de vigilância, de nos apetrecharmos pela via da formação, da educação, das novas linhas abertas pelo desenvolvimento da ciência sem nos desapegarmos dos objetivos do desenvolvimento do milénio, que são mais vastos do que o simples aumento do PIB.», expondo desta forma um dos maiores desafios que as democracias enfrentam: o facto de que «uma sociedade que pretenda ter uma visão sobre a necessidade de não deixar ninguém para trás tem muitas dificuldades perante o que é o desenvolvimento económico da atualidade.»

Foi este o homem que foi nosso Presidente e que deixou este nosso País bastante mais pobre. Que se assumiu em constante sobressalto com as desigualdades e a forma como afetam a liberdade de cada pessoa.

Um homem que, enquanto Presidente da República, não se deixou intimidar pelo que muitos chamam de realpolitik e enfrentou a Indonésia ao pugnar sempre pelo direito à independência do povo timorense. A propósito do processo de independência de Timor, Xanana Gusmão escreveu o seguinte: «São muitos os momentos que tenho gravados na minha memória e no meu coração, mas não posso deixar de destacar o momento em que chorámos juntos ao contemplar o nascimento de Timor-Leste (…).»

O mesmo homem que esteve na linha da frente do movimento estudantil que, em 1962 começou a desafiar Salazar e que mais tarde, já jovem advogado, defendeu vários presos políticos do regime que abominava a pluralidade de visões e o pensamento livre.

Jorge Sampaio nunca deu o seu trabalho por terminado. Assumiu-se sempre como um homem inquieto, com olhos postos no futuro e no que ainda está por fazer. Honremos o seu legado e deixemos que a sua inquietação e preocupação com o futuro e cumprimento dos Direitos Humanos norteie também a nossa ação.