Artigos

Ensonados

Com ou sem pandemia este país imerge na crónica letargia estival. O mergulho é tanto mais profundo se adicionarmos o tempero futebolístico da seleção das quinas – uma das partes da trilogia dos “F’s” a que juntam “Fátima” e “Fado” – que é um dos maiores opiáceos da lusa nação e, um dos raros momentos de orgulho e exaltação nacional, a que as mais altas figuras do Estado adoram surfar e recolher simpatias, dada a aridez do nosso triste fado a que as mesmas nos mantêm atolados, até nos “cair a ficha” da vida real e despertamos, ora de mãozinhas para o céu, ou como cabisbaixos pedintes à Europa. Ora, não descurando a importância terapêutica dessa alienação coletiva, em tempos particularmente difíceis em que as alegrias rareiam, este entorpecimento nacional alimentado profusamente pela comunicação social, coloca-nos mais frágeis e menos alerta. Pois por detrás da tela do folclore da bola, e com a fadiga mental que nos provoca a pandemia e a comunicação ziguezagueante à mesma afeta, afrouxamos o pensamento crítico e a exigência de responsabilidades com que os poderes públicos se furtam, sobretudo quando se avizinham eleições para depois do verão. Não menos importante é também a nossa aparente esquizofrenia que baloiça ora pela ansiedade de termos turistas – atendendo à importância que o setor tem na nossa economia – e as críticas que fazemos sobre o acolhimento de grandes massas de adeptos estrangeiros do futebol no nosso país. O que é que afinal pretendemos? Turistas a torrar dinheiro, ou ficarmos sentados à espera duma pseudo-bazuca gratuita de muitos milhões de euros? A realidade não é branca ou negra. Se tivéssemos capacidade de exigir, podíamos equilibrar tanto quanto possível os interesses da equação. Os poderes europeus e Merkel já se aperceberam que somos desorganizados enquanto país, e o nosso governo nacional só está interessado em “ir ao banco” da “bazuca”, (como afirmou António Costa deslumbradíssimo como uma criança junto do Pai Natal sem disfarçar a sua esdrúxula excitação). Como a economia alemã não está dependente do turismo como nós, pode-se dar ao luxo de colocar uma cerca sanitária para além do Canal da Mancha. Como nos faltam governo, oposição parlamentar e até um presidente cuja existência histriónica e populista apenas cultiva ocas simpatias, na verdade só podemos contar com a “sorte”, e a circunstância de (apesar de tudo), vivermos num país belo, pertencendo a uma União Europeia que faz como que não nos despistemos, dada a nossa tendência à “venezuelização”. O semanário de referência português colocou na sua última edição a paleta do arco-íris em rasgo apoio à causa LGBTI (no tempo do politicamente incorreto, bastava um único vocábulo que ainda existe no dicionário da língua portuguesa, para englobar todas as variantes deste acrónimo). Uma vez mais uma vaga simbólica toldou a indignação profissional como a resistente UEFA, menos a presidência portuguesa do Conselho da EU que alegou (e bem, digo eu), a sua neutralidade perante a diabolizada lei húngara que criminaliza essa comunidade, contrastando com o discurso interno para os “tugas” e a sua base eleitoral de esquerda aspirar lamber a testa… O que interessa é mesmo “parecer” ensonado.