Crónicas

Rendidos às evidências

Quarta-feira foi o dia mundial da Língua Portuguesa. E vale a pena assinalá-lo. Não para constatar que se escreve mal, como sempre se escreveu, mas para reparar na novidade de ninguém se importar com o que está mal escrito.

Com as redes sociais, a língua seguiu uma evolução curiosa. Por um lado, globaliza-se, confiscando expressões do inglês e de outras línguas dominantes. Por outro, sentimentaliza-se, preferindo palavras mais chamativas e sensacionais, extraídas de tradições orais mais maleáveis, como a do português do Brasil. Mal muralhada e defendida, a língua deixa-se invadir por assassinos silenciosos, que, numa manobra de guerrilha, se dedicam à implantação de um dialecto semi-bárbaro. E não são poucos.

Começamos pelo capitão da companhia anglófila: o verbo “escalar”. Num dicionário clássico, escalar significa galgar ou trepar, e ainda abrir, estripar e salgar um peixe. Na nova língua (e o “nova” usa-se com suspeição, como em “novos-ricos”), é sinónimo de “crescer rápida e progressivamente”. O capitão obteve a patente numa missão de alto risco, depois de se infiltrar num discurso de Estado a propósito de uma infecção viral. O resto da equipa, que também escalou, é composta por sicários da mesma ordem e quilate. Temos o “mandatório”, encarregado de tirar o pio ao “obrigatório” e ao “compulsivo”. “Parquear”, para tirar o lugar ao “estacionar”. “Aportar, que, além de parquear navios, é um rival pretensamente fino de “contribuir”. “Endereçar”, um verbo antes reservado a carteiros, escriturários, e namorados por correspondência, sequestrou o “abordar”, o “confrontar”, e o “lidar com”. E o comando “briefar” aguarda, camuflado, a sua estreia num relatório do Infarmed.

O grupo é maior do que se julga, e mais insidioso do que se imagina. Quando há dias ouvi comentar que alguém teria “comportamentos aditivos”, julguei que se tratava de um aficionado da matemática. Era afinal um toxicodependente, que se debatia com uma “adição”. Há depois uma beleza lepidóptera nestes neologismos, onde por pouco qualquer lagarta dá em borboleta. Semanas depois do drogado, falaram-me numa mulher “empóderada”. Confiante de que farejara vestígios etimológicos de “pó”, perguntei, com estudada perfídia, se a senhora sofria de comportamentos aditivos. Cá nada! A pequena dava formação em auto-ajuda. E tinha público. Perdão, “audiência”!

A escrita sensacional consegue ser ainda mais manhosa. Os infiltrados são expressões utilizadas por aproximação fonética, cujo sentido intuitivo substituiu o intelectual. Soam melhor assim. O chefe é o general “assertivo”, que agora se escreve “acertivo”, e mesmo quando não se escreve “acertivo” se usa no sentido de “acertado”, e não de “determinado” ou “categórico”. A correspondência agora “recepciona-se”. Quando nos ocorre estar ao corrente, estamos afinal “ocorrentes”, que é como fica alguém que visita o “Ocorrências da Madeira”. Os madeirenses têm um infiltrado de estimação: é o “genuíno”. Algures entre o “autêntico”, “verdadeiro”, ou “sincero”, genuíno significa uma coisa ser neutramente o que é. Por cá, porém genuíno é “benevolente”, “puro”; ou “cândido”, e significa uma coisa ser positivamente como deve ser. Mas o genuíno madeirense anda enganado. É que um defeito genuíno é muito pior do que um defeito envergonhado. Basta olhar para os genuínos burgessos, e ver como agem como superiores técnicos da demais burgessura, dando barraca de bom grado e até pretensiosamente. Nesses casos, a boa educação mandaria domesticar a genuinidade, optando antes por alguma discrição e reserva. Melhor do que ser burgesso, é ao menos fingir que não se é. “Genuíno” pode, pois, ser uma qualidade. Só não para toda a gente. Estou também convencido de que se julga que “chármoso” é diferente de charmoso, e quer dizer bonito. Mas fica para outro dia.

O Acordo Ortográfico não ajudou. Se o brasileiro é um português dilatado pelo sol (Eça), o Acordo Ortográfico é um brasileiro encolhido pela chuva. Num esforço integrativo simpático mas fútil, abastardou a escrita, e nada mais fez senão instalar praga de “cês”. Pelos “cês” que morreram, temos uma certa ternura. São como chapéus atirados a um bengaleiro que o AO aposentou. Convém é lembrar que nem todos chegaram a viver: “contrato” nunca foi “contracto”, “retrato” nunca foi “retracto”, e “quarteto” nunca foi “quartecto”. Assim foge o pé para o chinelo. Erudito, erudito, é queixar-se das palavras carequinhas, que continuam a precisar do seu chapéu de “cê”. Depois do AO, por exemplo, é impossível a uma senhora escrever, com correcção e seriedade, sobre os “tetos” de sua casa.

É tudo joio? Não, há algum triguinho. “Engajamento” por exemplo, é uma corruptela de engagement, e significa adesão, compromisso ou activação. Em condições normais, deveria ser fulminado. Excepcionalmente, é tolerável. Mas só na imprescindível premissa de derivar de “gajo”, e não da foleirice inglesa. Arrasta muitos gajos – e gajas – consigo? Parabéns. É um gajo engajador.

Carinho merece também a pérola “realizar”. Realizar, já se viu, é “aperceber-se”, ganhar noção de algo. Mas nenhum deles captura o dramatismo da descoberta de que a luz ao fundo do túnel se trata, afinal, do comboio da realidade. Há dias realizei, por exemplo, que o Marítimo podia descer de decisão. Mas já me tinha apercebido desde o Natal.

Entre o cómico e o caricato, há extravios que não merecem complacência. O mais irritante é talvez a “evidência”. Passou a ser preciso “indicar evidências”, ou produzir “evidência científica”. E é o mais irritante porque, além de combinar imperialismo do inglês com o colonialismo do brasileiro, é o mais paradoxal. Não só passou a significar outra coisa, como se transformou no oposto do que significava: o que não necessitava de prova transformou-se na prova necessária. Torna-se aos poucos possível afirmar o seguinte escândalo “o evidente dispensa a apresentação de evidências”.

Há quem conviva com estes mutantes sem comoção ou censura, como se fossem derivados criativos da revolução digital. Endereçam as evidências acertiva e empoderadamente, briefando a audiência engajada com o retracto por si apresentado, repleto de emojis como os egípcios.

Perguntam-me se também escrevo “Farmácia” com “PH”, como se fosse a mesma coisa. Convencem-se, e convencem-me, de que a ruína afinal sou eu. Antes assim. Phoda-se.

A Lista Verde e a Passadeira Vermelha

Portugal está na lista verde do Reino Unido

Os britânicos vêm vacinados. Supostamente, não apresentam risco para os indígenas.

No entanto, se estes viajantes pretensamente imunes forem a Espanha, já têm de se testar e ficar 10 dias em isolamento profiláctico.

Já os espanhóis, que estão na lista vermelha, podem livremente deslocar-se a Portugal, que – recorde-se – está na lista verde, e aí conviver com os ingleses; e os ingleses também podem ir de Portugal a Espanha, e aí conviver com os espanhóis, que estão na lista vermelha, garantindo que o vírus circula numa espécie de shaker ibérico e verde-rubro.

Um ano depois, continua este buffet. E reaquece-se o prato - cansadíssimo - da mercantilização da quarentena pelos países que exportam turistas.

Não existem sítios verdes. Decerto não os haverá por muito tempo, se o verde apenas for verde para receber turistas, e descurar a prevenção do contágio local.

Sendo claro, o problema da doença é a circulação. E a solução para o turismo é a circulação. Querer turismo é querer o risco da doença, porque – tudo considerado – começamos a preferi-lo à estagnação.

Com a vacinação e o aprimoramento do conhecimento, já se pode abandonar algumas infâncias do pensamento. As listas verdes do Reino Unido não são um prémio, mas uma moeda, que o Foreign Office negoceia com estratégia e ardil. Compreende-se a alegria. Mas nas costas dos outros vemos as nossas, e a lista vermelha onde estivemos o ano passado. O tempo para a discriminação soberana começa a passar.

O turismo precisa de ser um mercado aberto. E Portugal precisa de uma cor na lista de si mesmo.