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Gasolina e Energia, Combustíveis da Inflação

Durante os últimos 10 anos, a inflação na Zona Euro foi fundamentalmente influenciada pelos preços da alimentação e da energia. Este período de taxas de inflação anormalmente baixas justifica-se pela crise financeira de 2008 e pela crise de dívida pública da Zona Euro, tempo em que a inflação variou entre um máximo de 3% e um mínimo muito próximo dos 0%. O BCE foi obrigado a adotar medidas extraordinárias de relaxamento monetário às quais já nos habituámos e continuam necessários para os países com economias menos robustas. Uma inversão desta situação já me pareceu mais longínqua, mas a recente tendência dos preços da energia e dos combustíveis podem levar a um aumento da inflação, resultando inevitavelmente na subida nas taxas de juro de referência e no consequente incremento do esforço financeiro assumido pelas famílias e pelas empresas.

O peso da energia no cabaz de preços do consumidor é de aproximadamente 4%, sendo que o da alimentação ronda os 17%. Os preços da energia, tal como os da alimentação, podem variar de acordo com factores exógenos, como podem ser o exemplo das questões metereológicas, da estabilidade política e económica nos países produtores, etc... Um impacto deste tipo, pode fazer variar os preços muito rapidamente, sendo que os seus efeitos nos mercados internacionais acabam por se refletir no poder de compra das populações, como temos testemunhado durante os últimos meses. A natureza dos recentes aumentos nos preços dos combustíveis e da energia está relacionada com a ausência de uma estratégia energética. Este desnorte influenciou os preços da energia nos mercados internacionais porque a Europa decidiu começar o seu processo de descarbonização sem prever alternativas. Sem retirar importância a este processo, antes de se fecharem centrais termoeléctricas, e Portugal fechou pelo menos 4 na última década, é necessário criar alternativas menos poluentes para não acabar refém dos países produtores de energia, que também produzem com recurso a combustíveis fosseis. Acabar com a capacidade produtiva em Portugal sem ter alternativas menos poluentes, em nada irá beneficiar o planeta por duas razões: (1) muda a origem da eletricidade, que continua a ser consumida da mesma forma, mas agora importada a países com planos de descarbonização menos ambiciosos; (2) mudam os preços da energia e dos combustíveis pelo aumento na procura e redução da oferta, e consequente dependência a determinados países produtores pela sua posição de domínio. Resumindo... não poluímos menos e pagamos mais.

Se analisarmos a taxa de inflação sem o efeito da alimentação e da energia durante a última década, podemos verificar que tem apresentado taxas inferiores a 2% e flutuações quase insignificantes. Isto é indicativo de que o preço da energia poderá vir a ser decisivo na inflação, sabendo que foi o impacto na subida dos preços de produção que teve na origem da subida estrutural dos preços no consumidor. Se este aumento não for passageiro como muitos esperam, poderá ter consequências significativas no custo da vida das pessoas, sempre que não forem tomadas as medidas para contrariar este efeito. O Governo já anunciou algumas medidas inúteis e dispendiosas para conter o preço da luz e dos combustíveis. O limite nas margens de comercialização dos combustíveis não vai influenciar significativamente os preços e ainda pode levar a problemas de sustentabilidade nos operadores mais pequenos. A “almofada” anunciada para conter o preço da energia é insuficiente e só serve para aumentar o déficit de tarifa que acabará por ser pago mais tarde pelas famílias e pelas empresas.

Muitos analistas consideram que o recente aumento nos preços da energia e dos combustíveis são passageiros, mas sabemos que se este aumento se prolongar durante o tempo suficiente para ser incorporado nos preços finais, muito dificilmente voltarão aos níveis anteriores.

Esta característica acaba por ter uma continuidade e reflexo negativo no poder de compra das famílias e nas margens das empresas. Será então uma questão de tempo, que determinará a necessidade das empresas fazerem refletir os incrementos dos preços da energia nos preços finais, levando a um aumento mais permanente da inflação, que abrirá as portas ao aumento nas taxas de juro de referência.

Há um conjunto de fatores que estão a jogar em sentido contrário, como são os ritmos moderados dos salários, fruto de pressões concorrenciais e de níveis ainda elevados de desemprego estrutural. Talvez por isso Lagarde e o seu homologo da Reserva Federal Americana, Jerome Powell, já vieram dizer que é muito provável uma subida na inflação seguida de uma moderação, sendo que acreditam que o atual efeito no aumento dos preços dos combustíveis e energia terão efeitos passageiros na inflação.