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Extremismo deve ser combatido com aposta na educação, economia e governação

Reunião promovida pela Fundação Mo Ibrahim este fim-de-semana em Marrocos, deixa várias recomendações

Bono Vox (vocalista dos U2) foi um dos participantes no Forum.
Bono Vox (vocalista dos U2) foi um dos participantes no Forum.

O combate ao extremismo implica uma aposta na educação, na economia e na governação, defenderam hoje políticos, responsáveis de organizações internacionais e um líder muçulmano, em Marrocos, que sublinharam também a diferença entre migrantes e terroristas.

“Para responder às causas do extremismo, é preciso responder a questões de governação, educação, saúde, corrupção, e isso tem de ser feito a nível político. Essa é a dificuldade”, defendeu Lamido Sanusi, um dos principais líderes muçulmanos da Nigéria, durante um debate sobre “O apelo do extremismo violento e da migração”, no âmbito do fórum “Fim de Semana da Governação Ibrahim”, que decorre até domingo em Marraquexe, Marrocos.

Numa intervenção muito aplaudida, o emir de Kano também chamou a atenção para as consequências das intervenções estrangeiras nos países.

“O Conselho de Segurança da ONU tem de pensar muito bem se a estratégia correta é alguém estar sentado em Washington e dizer que não quer determinado Presidente e vai mudá-lo. Talvez haja outra forma de o fazer, para além de fomentar grupos não democráticos a pegar nas armas, porque a violência traz mais violência”, afirmou Lamido Sanusi.

“É preciso olhar para as lições do passado. Querem ver-se livres de Khadafi? Quem têm a seguir? Querem ver-se livres de Assad? Muito bem. Quem vem a seguir? O ISIS?”, perguntou.

Para Youssef Amrani, ministro-delegado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Marrocos, “o mais importante é atacar as causas”, porque “medidas de segurança e intervenção militar não resolvem o problema”.

O diplomata marroquino alertou para a necessidade de responder às expectativas dos jovens em África, onde mais de 60 por cento da população tem menos de 25 anos, e de envolver as mulheres nesta tarefa.

“Temos de construir economias mais fortes, precisamos de Estados fortes e precisamos de liderança”, defendeu, acrescentando outra proposta: para prevenir a radicalização, é preciso usar “as mesmas ferramentas” que os terroristas, como as redes sociais.

No mesmo sentido, Jean-Marie Guéhenno, diretor-executivo do International Crisis Group, alertou que o terrorismo emerge onde não há um Estado forte: “O vazio deixado pela ausência de Estado é explorado por vários grupos”.

Martin Kobler, chefe de missão de apoio das Nações Unidas na Líbia, destacou que há documentos muito bem preparados, mas depois “falta a vontade política para os implementar, em particular em locais em crise”.

Por outro lado, os participantes no debate acentuaram a distinção entre migrantes e terroristas.

Guéhenno alertou que “a grande maioria dos migrantes são as vítimas de terrorismo” e não os autores dos ataques.

“As cercas não são suficientes para combater a migração, temos de responder às causas”, considerou Martin Kobler.

Os oradores também concordaram sobre a necessidade de prevenir o terrorismo.

Jean-Marie Guéhenno defendeu que a comunidade internacional não pode “virar a cara a pequenos conflitos, sobre posse de terras ou gado, que se arrastam por muitos anos”.

“Ao longo do tempo, o caos instala-se e depois o terrorismo prospera”, avisou.

O encontro promovido pela Fundação Mo Ibrahim reúne líderes políticos, responsáveis de organizações multilaterais e regionais e representantes do mundo empresarial e da sociedade civil, e pretende debater o tema “África num ponto de viragem”.

A Fundação Mo Ibrahim, que se dedica há dez anos a promover a liderança e a boa governação em África, publica anualmente o Índice Ibrahim de Governação Africana, que recolhe mais de cem indicadores sobre todos os países africanos.

A organização também atribui prémios de excelência na governação africana, tendo já distinguido o antigo Presidente sul-africano Nelson Mandela ou os ex-Presidentes Joaquim Chissano (Moçambique) ou Pedro Pires (Cabo Verde).