Ferin, a “mais bela livraria de Lisboa”, renasce com mais livros, poesia e um bar

Lisboa /
21 Mar 2017 / 01:30 H.

A centenária livraria Ferin esteve para desaparecer, foi salva pelo dono da Ler Devagar, que a considera a “mais bela de Lisboa”, e que lhe vai dar nova vida, a partir de hoje, com mais livros, bar e eventos culturais.

Fundada em 1840, a livraria Ferin atravessava graves problemas financeiros, ao ponto de a editora Principia, que em 2011 adquirira 49% do seu capital, ter ponderado fechá-la.

Antes, porém, o responsável da editora, Henrique Mota, falou com o livreiro José Pinho, dono da Ler Devagar (Lx Factory) e organizador do Fólio, Festival Literário Internacional de Óbidos, e perguntou-lhe se queria ficar com a livraria.

Até então, José Pinho desconhecia em absoluto a situação financeira da Ferin, mas mesmo depois de ter percebido que o estabelecimento acumulara dívidas ao longo dos anos, cerca de quase cem mil euros nos últimos quatro anos, aceitou o convite para ir ver a livraria.

Naturalmente já conhecia aquele espaço, localizado no rés-do-chão da rua Nova do Almada, “que é, na realidade, das livrarias clássicas, a mais bonita de Lisboa”, mas não conhecia a cave, um antigo convento, com “duas salas abobadadas, lindíssimas, que não eram de uso público”.

“Quando cheguei aqui, fiquei com um entusiasmo tal que disse para mim próprio: ‘vou ficar com a livraria’”, apesar de saber que havia problemas para resolver - o financeiro, o dos funcionários e a lei do arrendamento, que contempla as lojas históricas, que ainda não foi regulamentada.

José Pinho foi conquistado por aquele espaço, “que parece uma cave, ao entrar pela rua Nova do Almada, mas que é um rés-do-chão para quem entra pela rua do Crucifixo, porta que só era usada para a entrega de livros, mas que agora passará a estar também aberta ao público”.

“Como isto não estava a ser usado como livraria, eu pensei: ‘aqui sim eu posso fazer uma livraria, ou duas, ou três’, porque a área é muito superior à área de cima”, afirmou, lembrando que nunca na vida comprou uma livraria, todas partiram do nada.

Aquele espaço reunia as condições. “Não havia nada antes e, portanto, o risco de ser mal sucedido é muito menor. É mais difícil cair para baixo de nada, subir é mais fácil, pode-se subir um bocadinho ou bastante”.

Valeram-lhe os exemplos da Ler Devagar ou de Óbidos, onde criou, do nada, as livrarias Santiago, do Mercado Biológico e da Adega.

A ideia foi, então, fazer o mesmo, agora, mas com um potencial maior, pois a Ferin tem a estética, o mobiliário, a história e uma oferta de livros raros que nenhuma outra livraria tem, desde a heráldica à militaria, passando pela genealogia, história, monarquias e outros livros muito específicos como os de arte.

Aproveitando a localização, José Pinho pensou que a Ferin -- que em tempos foi uma livraria franco-belga - poderia ser também uma livraria internacional, dirigida aos turistas, com uma oferta “o mais completa possível dos autores portugueses traduzidos em língua estrangeira”.

A acrescentar a isso, haverá novidades de catálogos de editores portugueses e, dessa forma, ficará “resolvido” o andar de cima.

As montras vão espelhar esta dupla oferta: uma será dedicada às editoras portuguesas, a primeira das quais será a Relógio d’Água, e a outra terá os livros de autores portugueses traduzidos em línguas estrangeiras e livros sobre Lisboa e Portugal.

Quanto ao andar de baixo, tinha “uma espécie de depósito e escritório”, que será convertido em “livraria do livro raro e antigo”, com estantes e mesas de madeira, a substituir as secretárias metálicas.

Contígua a essa sala, a outra área será livraria e bar, terá livros de fundo de catálogo, livros infantis e atividades para crianças, porque “este labirinto, a entrada pela rua do crucifixo e aquele espaço exterior, é um pouco mágico”.

À semelhança da Ler Devagar, no espaço de bar e livraria, os clientes podem entrar para tomar um café ou beber um copo de vinho, para ler, para estudar, para “permanecer”.

As mesas foram oferecidas pelo restaurante Palmeira (que encerrou em dezembro, depois de mais de 60 anos na rua do Crucifixo), e levaram um tampo de mármore; as cadeiras vieram do pavilhão Carlos Lopes. Uma prensa e uma máquina tipográfica antigas, pertencentes à Ferin, que estavam “escondidas” na cave, complementam a decoração.

“Há aqui um aproveitamento dos materiais, que é o que eu gosto de fazer”.

A programação cultural incluirá um ciclo de conferências mensais em parceria com a Relógio d’Água, sobre temas da atualidade. A primeira será no dia 30, dedicada às eleições francesas.

“Além disso também queremos fazer concertos, música e teatro”, de maneira a que, “todas as semanas, possamos ter aqui uma, duas, três atividades regulares”, sempre diferentes.

“Para já, no dia 21 -- Dia Mundial da Poesia - vamos abrir as portas, vamos abrir o portão da rua do Crucifixo, assistir à sessão de poesia, vamos ter mais uma conversa, quanto mais não seja sobre este projeto e apresentá-lo publicamente, fazer uma comemoração, e é sempre bom comemorar”.

Com um investimento que não chega aos 150 mil euros, mantendo os antigos funcionários e contratando mais três, José Pinho está apostado em desenvolver todo este projeto e salvar a Ferin.

“Vamos, a partir de agora, inverter a tendência e conseguir manter a livraria aberta. É a segunda mais antiga de Lisboa, a mais bonita de todas e ela merece isso”.

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