Quem olha pelos lesados?

03 Mar 2019 / 02:00 H.

Gemem em segredo. Não se manifestam. O dinheiro é problema, sem ser o único, sempre que a dignidade humana é posta em causa, as humilhações são constantes e a incerteza uma espécie de castigo. Referimo-nos aos que foram e continuam a ser lesados, não só pela banca das soluções que gerou complicações, pobreza e suicídio. Gente que merece consideração. No mínimo. E atenção. Já. De preferência, eficaz e edificadora.

Por mais vistoso que seja o branqueamento em curso, lesados há muitos. E ninguém se atreve a resolver, ou pelo menos a criar linhas de apoio a todas estas vítimas dos caprichos alheios e da incompetência certificada, factores que, conjugados com as fragilidades pessoais, costumam render perplexidade, desânimo e desleixo.

A ilha também é feita de gente assim, sem oportunidade, nem carinho.

Os lesados do ferry. Os que não deviam ter que esperar por Maio para definir opções de vida. Antes de tudo e de qualquer contencioso alguém com bom senso devia tratar deste assunto medonho que nos torna mais ilhéus.

Os lesados dos edifícios devolutos. Os que vivem em sobressalto constante por falta de cuidado de quem muito tem mas pouco se interessa pelo bem comum.

Os lesados da Saúde. Os que esperam por consulta e por cirurgia. Os que nem sempre têm remédios a tempo e horas. Os que morreram sem explicação. Os que sofrem sempre que ouvem barbaridades sobre um sector que tem tanto de vital como de surreal.

Os lesados das ‘fake news’. Por se perderem muitas vezes nas redes da ficção e da boataria, em vez de lerem jornais. Por preferirem partilhar mentiras oportunistas do que verdades incómodas. Por acreditarem mais em perfis falsos do que em rostos conhecidos.

Os lesados da política. Não são só aqueles que numa ou noutra assembleia municipal se exaltam devido à visualização de canais eróticos num centro intergeracional ou com as mãos cheias de nada. São mais os outros que não tem a protecção divina ou a lei conveniente do seu lado, pagando por todos quantos endividaram irresponsavelmente o colectivo.

O Eurobarómetro divulgado na última semana pela Comissão Europeia tem quase tudo o que é necessário para que ninguém se espante com os resultados que venham a ocorrer neste ano de três actos eleitorais. A política é aquilo que se sabe. Só 17% dos portugueses confiam nos partidos políticos. Os lesados manifestam uma “quebra na confiança nos partidos políticos, no Governo e no parlamento, bem como na satisfação com a democracia” porque se fartaram da dar para um peditório que até lhes roubou a lucidez. Se só metade consegue identificar notícias falsas, percentagem que Bruxelas classificou como “preocupante” e que está 10 pontos abaixo da média da União Europeia, fica claro que para além de mais expostos à mentira, os cidadãos parecem estar menos conscientes das manobras deturpadoras da realidade, para além de pouco preparados para identificá-las e menos dispostos a considerá-las um problema no seu país no funcionamento das democracias. Só assim se explica que partilhem mais facilmente sites manhosos do que notícias com marca de confiança.

Os produtores de desinformação conhecem estas vítimas. Sabem que têm mais de 55 anos e poucos estudos. Resta-nos a consolação que é um desafio: no que toca à confiança nos meios de comunicação social, mais de dois terços dos portugueses dizem acreditar na informação veiculada pela televisão e pela rádio (68% em cada), seguindo-se a imprensa escrita (61%) e a internet (41%). Por isso, importa retribuir com elevação a preferência expressa.

Ricardo Miguel Oliveira
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