“Estudasses!”

Cabe a cada madeirense elaborar com urgência o seu plano de contingência

24 Nov 2019 / 02:00 H.

O Governo Regional fez trabalho de casa e chegou a São Bento com dez exigências. Como a reunião “correu muito bem”, ninguém regressou de mãos a abanar. Contudo, sete reivindicações ficaram pelo caminho, a julgar pelo que disse Miguel Albuquerque, antes das emendas que foi obrigado a fazer, um dia depois. Pelos vistos, o diagnosticado “problema de comunicação” ainda não está resolvido, mesmo que o executivo tenha constituído a maior redacção da Madeira!

Miguel Albuquerque trouxe de Lisboa meio hospital, um grupo de trabalho para as questões da mobilidade aérea e, imagine-se, “um estudo de mercado” no que diz respeito à ligação marítima. Se assim é, admite-se que tenha querido ser simpático para com o primeiro-ministro. Obter uma comparticipação do Estado no montante de 158,7 milhões de euros não é de deitar fora. Mas chamar a si o ‘empapelanço’ alheio, no caso, oriundo do universo das promessas eleitorais socialistas, é um erro de palmatória.

Na prática, fica claro que apesar do novo modelo de subsídio de mobilidade ter sido aprovado na República não será tão cedo que pagaremos apenas 86 euros pelas viagens aéreas entre a Região e o continente e que o ‘ferry’ que até já tinha rampa para atracar em Lisboa é uma miragem. Pior, se dúvidas houvesse, a terceira companhia na rota doméstica destinada a baixar preços e os lugares disponíveis a baixo custo para tanta procura continuam adiados, tal como o ferry que encalha, a menos que seja feito um novo contrato.

A este propósito e para que fique claro na cabeça dos que nos acusam de delírio, o DIÁRIO tem em sua posse, facultada pelo Governo Regional, a carta que Empresa de Navegação Madeirense (ENM) informa que pretende colocar termo ao contrato de concessão de serviços públicos de transporte marítimo de passageiros e veículos através de navio ferry entre a Madeira e o continente português. “Tal possibilidade está prevista no contrato de concessão”, esclareceu Pedro Calado na notícia que uns furtaram e outros, pelo que disparatam, não leram.

Sem ofender ninguém, porventura hábil no jogo de palavras e na fuga ao descuido, a carta não é de difícil interpretação e sobretudo, em nenhum momento justifica aquilo que o presidente do Governo disse na ALM: “O que há é uma carta do actual operador a perguntar se a promessa do actual primeiro-ministro será cumprida. O que o operador quer saber é se a operação é a partir de Janeiro e em que situação é que ele fica”. Mais, se a carta não aponta para a rescisão, como alguns tentam insinuar, porque motivo Pedro Calado assumiu ao DIÁRIO isto: “Aceitamos a justificação da empresa para pôr termo ao contrato”. Ou isto: “É evidente que a ENM tendo a possibilidade de acabar o contrato agora, o que está legalmente previsto, e não querendo assumir mais custos ou ter um navio parado ou sem passageiros, fez a sua opção”. Ou ainda isto: “Se há um compromisso do Governo da República para fazer esta operação na Madeira durante todo o ano, também não faz sentido que o Governo regional mantenha uma operação que é deficitária”.

“Estudasses!”, dirão os que com a habitual sobranceria e oportunismo consideram ser normal em política este tipo de práticas. É comovente a forma como os dois governos se gabam desta irritante predilecção pela irresponsabilidade e pelas desculpas, só porque não avaliaram compromissos antes de os assumirem. Tem dias que foram empossados, mas denotam uma profunda amnésia, pois sentindo o embaraço em que se meteram tentam empurrar desesperadamente promessas feitas.

Sempre que criam comissões de acompanhamento, sugerem grupos de trabalho ou encomendam estudos dão um perigoso sinal aos eleitores, fartos de ser enganados, embora alguns, sem emenda, cá e lá, tenham insistido no logro.

Não podemos levar a sério quem brinca à política. Por isso, nestas questões da mobilidade, os madeirenses já devem ter concluído que se não tiverem o seu plano de desenrasque, que o poder pomposamente chama de contingência, ficam em terra, isolados e distantes, a ver navios e aviões.

Ricardo Miguel Oliveira
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