Kallas recua e anula grupo de trabalho da UE sobre Defesa que incluía Gomes Cravinho
A chefe da diplomacia da União Europeia (UE) cancelou um grupo de trabalho sobre Defesa que iria ser apresentado hoje e que incluía o ex-ministro português João Gomes Cravinho, após alguns Estados-membros o terem considerado inoportuno.
Este grupo de trabalho de alto nível tinha sido anunciado por Kaja Kallas na semana passada, no dia em que a Alemanha atribuiu os incidentes com drones no aeroporto de Leipzig à Rússia e após uma reunião informal dos ministros da Defesa da UE na Irlanda.
Previsto para ser oficialmente lançado hoje, o grupo de trabalho foi, no entanto, cancelado, porque, segundo um porta-voz da Comissão Europeia, "alguns Estados-membros consideraram que este não era o rumo adequado neste momento".
"Após algumas discussões com os ministros, a Alta Representante decidiu não avançar com a iniciativa e está agora a procurar novas formas de trabalhar com os Estados-membros", referiu o porta-voz da Comissão com a pasta dos Negócios Estrangeiros, Christian Wigand.
Apesar de a sua composição não ter sido oficialmente divulgada, fontes europeias indicaram à agência Lusa que o grupo de trabalho iria ser presidido pelo ex-secretário-geral da NATO e antigo primeiro-ministro dinamarquês Anders Fogh Rasmussen e seria composto por cinco ex-ministros da Defesa, entre os quais o português João Gomes Cravinho.
Gomes Cravinho confirmou à Lusa que tinha sido convidado e que recebeu um 'email' a desconvocar a reunião.
Os restantes ex-governantes eram a francesa Florence Parly, o britânico Ben Wallace, o ucraniano Andriy Zagorodnyuk e o estoniano Juri Luik.
O neerlandês Rob Bauer, antigo presidente do Comité Militar da NATO, e o general alemão Chris Badia completariam o elenco deste grupo de trabalho.
Na semana passada, quando anunciou o lançamento deste grupo de trabalho, Kallas tinha indicado que o objetivo era "reunir algumas das mentes mais brilhantes na área da segurança e da Defesa" para garantir que o aumento do investimento que está a ser feito permitiria "colmatar lacunas na capacidade militar convencional da Europa".
"A Europa está a investir mais na Defesa do que nunca, mas gastar mais, por si só, não é automaticamente uma garantia de sucesso. Não temos avançado com rapidez suficiente para colmatar as lacunas identificadas nas capacidades militares convencionais da Europa", tinha alertado Kallas na altura.
A Alta Representante para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança tinha também sugerido que o grupo iria avaliar como é que a UE deve responder à campanha de ataques híbridos que o bloco considera estar a ser levada a cabo pela Rússia.
O cancelamento deste grupo de trabalho surge numa altura em que a eficácia do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) e do cargo de Alto Representante da UE tem sido questionada por alguns Estados-membros.
Na semana passada, a França e a Alemanha divulgaram uma proposta -- debatida na reunião informal dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE na Irlanda -- que considerava que o papel desempenhado pelo SEAE e pela Alta Representante "tem diminuído".
"A Alta Representante e o SEAE são frequentemente relegados para segundo plano. Consequentemente, as considerações de política externa nem sempre são suficientemente tidas em conta na definição de políticas comunitárias", alertavam.
Para alterar essa situação, os dois Estados-membros propunham um reforço do cargo de Alto Representante, para que passe a ter "de facto a autoridade para coordenar a política externa" da UE, mas também a integração, "em larga medida", dos serviços do SEAE "nas estruturas da Comissão" -- o que tem sido visto como uma proposta para dissolver o serviço diplomático da UE.
Na semana passada, na conferência de imprensa na Irlanda após a reunião informal dos chefes da diplomacia dos 27, Kaja Kallas indicou que os ministros manifestaram "um amplo apoio à atual configuração institucional" -- ou seja, opuseram-se a uma eventual dissolução do SEAE --, apesar de concordarem que "tem de ser melhor implementada".
"Ficou claro que os Estados-membros querem continuar a orientar a política externa europeia", referiu na ocasião.