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Rostos da Autonomia Madeira

Ao lado dos agricultores

Vicente Pestana foi eleito por quatro círculos eleitorais diferentes mas nunca deixou de fazer o que sempre sonhou, apoiar os agricultores da Madeira

Vicente Pestana nasceu em São Vicente e desde muito cedo teve um objectivo de vida: ajudar os agricultores de um concelho que era “dos mais pobres do país”. Como recorda, antes do 25 de Abril, Portugal era pobre e dentro do país a Madeira era ainda mais pobre. São Vicente, onde a população vivia da agricultura, era “o mais pobre da Madeira”.

Para estudar os sacrifícios eram muitos, não havia escola pública e os poucos que conseguiam, como ele, dependiam de um grande esforço da família.

Formou-se como engenheiro técnico agrário e foi com essa competência profissional que se dedicou a ajudar os agricultores. Algo que iria fazer, até hoje, mesmo depois de reformado. Pelo meio foi político, deputado e teve responsabilidades no governo.

Vicente Pestana é o entrevistado dos ‘Rostos de Autonomia’, uma iniciativa do DIÁRIO com o apoio da Assembleia Legislativa da Madeira que apresenta figuras que se destacaram nestes 50 anos de Autonomia. Uma conversa de memórias que pode vista e ouvida no espaço de podcast de dnoticias.pt. (https://podcasts.dnoticias.pt/rostos-da-autonomia/).

Teve várias funções na área agrícola, também na área de política, tendo o pormenor de ter sido o único deputado que foi eleito por quatro círculos regionais, três círculos concelhios e um círculo regional.

“Eu fui candidato e fui eleito deputado primeiro pelo Funchal, foi o primeiro círculo em que fui eleito, em 1980 e em 1984, sou eleito deputado por São Vicente.  Entretanto, saí em 1988 e regressei à minha vida técnica no governo regional, e só regresso à Assembleia em 2004. Em 2004 residia em Santa Cruz, daí que tenho sido eleito por esse concelho”.

Mais tarde, nas eleições de 2007, terminam os círculos concelhios e é criado um único círculo eleitoral regional. “Como continuei a ser deputado fui eleito realmente por quatro círculos”.

Foi deputado durante vários mandatos, responsável por serviços florestais e agrários no Governo Regional, nomeadamente nos projectos de florestação e ordenamento.

“Formei-me como engenheiro técnico agrário, e como era o meu sonho, e sempre foi o que eu gostava de ser, de participar, era na ajuda aos agricultores, para que eles progredissem, porque eu conheci essa realidade, a minha origem é de São Vicente, e vivi no meio”., explica

“São Vicente era um concelho agrícola, e muito pobre, e com muitas dificuldades. São Vicente, na década de 70, 80, era o concelho mais pobre do país, as pessoas viviam em condições miseráveis e eu ganhei a consciência que alguma coisa tinha de ser feita para melhorar as condições da população. Aliás, ainda antes do 25 de Abril, foi lançado um programa de alguma em que o próprio governo tentou activar determinadas consciências da própria população, para formar e elevar o seu nível social".

E os pedidos das pessoas surpreenderam pela simplicidade.

“Na altura, para termos uma ideia do que eram os concelhos rurais, para ver o nível de pobreza que nós tínhamos, as pessoas pediram - e eu pertencia a essa comissão, eu e mais dois senhores com uns 80 anos -, lavadouros públicos, para ver o nível de exigência que aquelas pessoas tinham, casas de banho públicas, cimentar algumas veredas, fazer alguns degraus. Eram coisas assim, muito simples, básicas, porque as pessoas viviam em extrema dificuldade".

Foi também no período em que esteve no Governo Regional que se deu um maior volume de obras públicas na Região, com a necessidade de criação e aterros, com polémicas que ainda hoje recorda.

“Em 1990, foi-me proposto que fosse gestor do Programa de Ação Florestal e desenvolvi um trabalho que também me deu muito gosto, porque reativei, ou contribui para a reativação do repovoamento florestal da Madeira, que estava entretanto parado. Reactivei essa área e, entretanto, o governo, o secretário e o diretor regional de então entenderam que eu deveria ser o director dos serviços. E desenvolvi essa actividade, que também me deu muito gosto, embora com muitas dores de cabeça, porque passámos por períodos muito complicados, que foi o boom da construção civil, em que as madeiras eram muito preciosas e havia muitas confusões com a questão dos pinheiros,, dos aterros, do depósito de inertes nas zonas públicas naturais, nas serras".

E aí entrou a campanha de reflorestação, também dos aterros, com muita polémica pelo meio.

“Havia muito aquela ideia de que tudo aquilo que não presta então manda-se para a serra ou para o mar, ou para o barranco abaixo. Havia muito esse hábito e foram períodos também complicados", recorda.

Tempos de conflitos e de muitos protestos.

"Conflitos, muitos processos de contraordenação, em alguns casos até um bocadinho, ou um bocado, muito desagradáveis, principalmente na questão dos aterros ilegais e na questão dos depósitos de inertes. Lembro-me de uma altura em que nós noticiávamos quase sucessivamente as deposições de terras ilegais. E era uma luta um pouco por culpa dos fundamentalismos, porque havia soluções que se podiam tomar, mas não podia ser em lado nenhum. Sempre que se indicava um local para fazer aterros, ou para a extração de pedra, para a extração de inertes, ou para depósito de terras, não podia ser em lado nenhum. Não podia ser. Fosse onde fosse, não podia ser".

Vicente Pestana lembra tempos em que as queixas multipicavam-se, nem sempre justas.

“Eu tenho uma interpretação, e posso estar a ser injusto, mas a verdade é esta, cada um arranja a sua maneira de brilhar, e houve umas pessoas que acharam que o caminho mais fácil para brilhar era ser contra isto, e contra aquilo. Leram uns livrinhos, e pensam que a solução está nos livrinhos que leram, não é assim, a vida é mais do que isso. É claro que a actividade humana causa sempre algum transtorno na natureza, mas isso é a vida, o que temos de fazer é mitigar esses efeitos. Agora, a vida não pode parar. Imagine-se o que seria a Madeira, hoje, se não tivesse feito as vias rápidas, se não tivesse construído a habitação, se não tivesse aumentado o aeroporto, e outras coisas2.

Foi um dos fundadores da Associação de Jovens Agricultores da Madeira, responsável por dar apoio aos agricultores, sobretudo no acesso aos apoios comunitários e no cumprimento de regras que eram novas e nem sempre compreendidas.

Depois de sair do parlamento esteve na Associação de Antigos Deputados que procura manter laços de amizade que se criaram entre parlamentares das diferentes forças políticas.

Hoje, vê com preocupação a evolução da democracia e da autonomia.

O que me preocupa hoje em dia, é que há muitos, e está muita gente a ir atrás disso, a tentar convencer as pessoas de que antes do 25 de Abril é que era bom. O que eles não sabem é que, por um dado que é muito significativo, até o 25 de Abril, até 70, 70, 80, as coisas não evoluíram assim de um dia para o outro. Ao nível nacional, 52% dos portugueses viviam em pobreza extrema. Mas era pobreza extrema, não é como agora que as pessoas dizem que têm dificuldades, mas vão de férias. Na altura ninguém sabia o que era férias. As pessoas viviam em furnas, viviam em palheiros, viviam em condições de uma extrema pobreza. Eu conheci a Madeira. Passavam fome. Mas fome, não é como hoje, a gente diz que passa fome, mas come bolos. Não, passavam fome. Eu conheci famílias que houve invernos rigorosos em que as pessoas só tinham para comer milho, mas sem mais nada, e era fiado na venda. Portanto, isso era pobreza", lembra.

Vicente Pestana diz-se chocado com a forma como se fala de antigamente e não se voloriza a democracia.

“Hoje em dia, ver pessoas que fazem propaganda, violenta até, violenta no sentido da agressividade, a dizer que antigamente era uma maravilha, era uma delícia. Isto era horrível, e realmente, nesse período da década de 70, 80, até meados da década de 90, foi um período de muita atividade, de muito entusiasmo, e em que as lutas políticas, inclusivamente, não tinham a violência que têm hoje.  Havia alguma agressividade nas palavras, mas não havia a falsidade, a demagogia - a demagogia sempre houve, sempre vai haver -, mas não havia o que hoje há nas redes sociais, nalguma comunicação social, principalmente nas televisões, que me assusta. Às vezes vejo programas, principalmente ao nível das televisões, que fico preocupado, porque está-se a branquear determinados discursos de ódio, de meias verdades, meias mentiras, que são perigosíssimas, são mais perigosas do que a mentira, e com uma facilidade, com uma banalidade, que é assustadora. E muitos partidos até estão a ir atrás disso, a imitar o que um partido começou, e que continua a ser o expoente máximo dessa doutrina, e há muitos que estão a tentar imitá-los".

Uma preocupação que não esconde.

“Isso preocupa-me, porque aquele legado que os políticas do pós 25 de Abril fizeram, de certa forma neste momento eu sinto que está em perigo, e tem vindo a agravar de ano para ano. A democracia e a autonomia não estão garantidas".

Agora com as comemorações dos 50 anos da autonomia, ficou "um bocadinho mais sossegado". 

A Autonomia também foi dada como garantida? “Exatamente, a expressão é mesmo essa. Não está garantido. Não está garantido nada na vida e muito menos a autonomia".