Para estes eclipses não há óculos
O que marcou agosto foi o eclipse solar. Durante alguns minutos, a Madeira parou para olhar o céu. Houve óculos especiais, fotografias, explicações e a atenção reservada aos fenómenos raros. Mas há eclipses que não exigem óculos: basta olhar para a vida dos madeirenses. São os eclipses do Governo Regional, problemas antigos tapados com anúncios novos e responsabilidades escondidas pela propaganda.
O eclipse da saúde é o mais grave, porque encobre pessoas, não apenas estatísticas. Segundo notícias vindas a público, havia 518 camas ocupadas por utentes com alta problemática nas unidades do SESARAM. Em agosto, cerca de 50 doentes chegaram a estar «internados» nos corredores das urgências, à espera de cama. O diretor clínico, Júlio Nóbrega, revelou que pessoas com alta clínica ocupavam cerca de 40% da capacidade hospitalar e que cirurgias eram canceladas por falta de camas para recobro e internamento. Ninguém pode alegar surpresa: em janeiro de 2018, o próprio Governo reconhecia 600 pessoas com alta clínica. Não é uma dificuldade temporária. É uma avaria profunda que sacrifica doentes e esgota profissionais.
Uma permanência hospitalar prolongada aumenta o risco de infeções, perda de mobilidade, desorientação e ansiedade. Uma enfermaria, com ruído, luz permanente e rotinas clínicas, não substitui a estabilidade emocional e relacional de uma estrutura residencial. Também custa mais: segundo valores apresentados pelo presidente do Governo, uma cama no serviço público custa cerca de 110 euros por dia, contra 62 euros numa instituição social.
Na habitação, Miguel Albuquerque encontrou uma nova sombra: prédios com 20 ou mais andares. Mas construir mais alto não significa construir mais barato. A altura dilui o preço do terreno por apartamento, mas encarece estrutura, fundações, elevadores, segurança contra incêndios, instalações técnicas, financiamento e manutenção. Mais pisos podem significar apenas apartamentos mais caros com melhor vista. A torre de 20 andares é o eclipse perfeito: uma solução visualmente enorme para esconder uma política habitacional demasiado pequena.
O Governo ignora ainda a dimensão territorial. A habitação pública pode fixar população nos concelhos do norte e nas zonas rurais. Não se trata de empurrar famílias de menores rendimentos para longe do Funchal, mas de criar comunidades mistas, com qualidade de vida, e contrariar a concentração demográfica no litoral sul.
Também no PRR houve eclipse: a reprogramação fez desaparecer 316 soluções habitacionais, 141 lugares em cuidados continuados e 328 vagas em estruturas para idosos. Ao perceber que não chegaria à baliza, o Governo aproximou os postes. Não cumpriu as metas: eclipsou-as.
Na mobilidade, o eclipse chega de Lisboa e encontra silêncio na Quinta Vigia. Os madeirenses continuam obrigados a adiantar o preço total do bilhete, a perder-se numa plataforma confusa e a esperar por reembolsos atrasados. Financiam o Estado para exercer um direito e quem não pode adiantar, fica em terra. Se o Governo da República fosse do PS, Albuquerque convocaria a indignação regional. Como é do PSD, chama dificuldade técnica ao que antes chamaria afronta à Autonomia. Este silêncio não defende a Madeira: defende o partido.
O eclipse aéreo estende-se ao ferry. O estudo conclui que uma operação regular exigirá financiamento público, o que não surpreende quem compreende a insularidade e a escala da Madeira. Também a continuidade territorial aérea custa dezenas de milhões de euros ao Estado e ninguém propõe extingui-la por não ser comercialmente rentável. A ligação marítima não pode ser avaliada apenas pelo lucro da bilheteira, mas pelo serviço aos residentes, pela mobilidade de pessoas e viaturas, pela concorrência nas mercadorias, pelo impacto nos preços e pela alternativa ao avião. A insularidade tem um custo, o que não pode continuar é haver direitos eclipsados porque os dois governos protegem a relação partidária em vez de defenderem os madeirenses.
Também o segundo helicóptero permanece sob um eclipse de promessas. Anunciado para 2025 e novamente prometido para julho deste ano, continua sem chegar. O Governo da República adia e o PSD-Madeira consente, como se repetir o anúncio substituísse cumprir o compromisso. Na proteção civil, promessas não levantam voo nem apagam incêndios: ou o helicóptero está na Região quando é necessário, ou o resto é propaganda envolta em fumo.
Agosto teve um eclipse solar, mas ficaram os eclipses do Governo Regional: problemas escondidos, promessas adiadas e silêncios convenientes. Para os ver não são precisos óculos especiais: basta viver na Madeira. Depois do eclipse, o Sol reapareceu em minutos. As soluções do PSD, essas, continuam na sombra.