Quando desmotivamos, quem deve motivar?

Há situações que não aparecem nas estatísticas, mas deixam marcas profundas. Este início de ano letivo trouxe uma realidade perversa para muitos professores com mais de 50 anos e décadas de serviço: viram-se, pela primeira vez, deslocados das suas escolas de origem.

A pergunta é inevitável: por que razão foram precisamente os mais experientes os sacrificados? Na tentativa de proteger docentes mais jovens e vulneráveis a concursos, muitos órgãos de gestão procuraram assegurar a sua permanência via requisição. Compreende-se a intenção de manter equipas, mas fica a dúvida: quem protege os professores mais velhos? A experiência acumulada tornou-se, paradoxalmente, um fator de desvantagem.

Mudar de escola aos 25 anos não é o mesmo que mudar aos 55. Para quem dedicou a vida a uma comunidade, perder essa referência é perder parte da identidade profissional. Contudo, o verdadeiro choque aguarda-os na chegada à nova escola.

Após as boas-vindas da praxe, restam-lhes os horários que ninguém quis e as turmas mais desafiantes — como o CEF e o Ensino Profissional. Não porque estes alunos valham menos; pelo contrário, exigem docentes firmes e experientes. O problema é a mensagem implícita: professores que antes geriam as suas carreiras com mérito veem-se remetidos ao que sobrou. Que indignidade. Que desmotivação.

Um professor pode cumprir o programa por dever, mas ensinar é inspirar. Como podemos pedir entusiasmo a quem começa o ano letivo desvalorizado? Como exigimos que um docente motive alunos desacreditados quando o próprio sistema o desmoronou emocionalmente?

Não se trata de reivindicar privilégios pela idade, mas de exigir respeito por uma carreira dedicada à escola pública. Se o sistema permite margem para requisições, é urgente criar critérios que salvaguardem o percurso e o impacto humano dessas decisões.

Uma escola que pretende ensinar a respeitar e a valorizar não pode descartar a memória de quem a construiu. Que futuro preparamos quando desmotivamos precisamente quem tem a missão de motivar?

Leitor identificado