A escola que o futuro exige
A publicação recente dos últimos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), um estudo comparativo internacional coordenado pela OCDE, que avalia as competências de alunos de 15 anos em Leitura, Matemática e Ciências, deve representar mais um motivo para pensarmos sobre a escola que temos e sobre a escola que queremos.
Analisando os resultados de Portugal no PISA 2025, verificamos que o nosso país apresenta uma evolução menos positiva em Matemática e Leitura, sendo o desempenho em Ciências relativamente estável, mas, em termos gerais, há um retrocesso face a dados anteriores, aproximando-se dos níveis observados em 2006.
E o que está na origem deste retrocesso? É quase imediato apontar a Covid-19 como a grande responsável pelo declínio das aprendizagens. Evidentemente que a pandemia deixou marcas, mas existem outras razões, nomeadamente o facto dos hábitos de atenção terem mudado, a entrada dos telemóveis demasiado cedo e de forma profunda na vida das crianças, as crescentes dificuldades que as famílias enfrentam, o que se repercute inevitavelmente na escola, e, muito importante, o próprio sistema educativo, com reformas sucessivas, mudanças de orientação e uma burocracia que consome tempo e energia.
De forma isolada, nenhum dos anteriores fatores explica tudo. Mas juntos ajudam a perceber melhor por que razão não podemos olhar para os resultados do PISA como uma só fotografia. Até porque o desempenho escolar resulta de muitas variáveis, entre outras, as aprendizagens acumuladas, as condições sociais, a relação das famílias com a escola, os hábitos de leitura, a forma como os alunos estudam e o papel dos professores.
Por vezes, num mundo em que a ferramenta de inteligência artificial escreve um texto, resolve um problema, resume um livro ou explica uma matéria quase instantaneamente, parece que já não vale a pena aprender. A conclusão tem de ser precisamente a contrária. Quanto mais fácil se torna obter respostas, mais importante se torna saber avaliá-las.
Por isso, devolver o livro à escola não deve ser entendido como uma guerra contra a tecnologia nem uma tentativa de a demonizar, mas sim de reconhecer que não deve ocupar todos os espaços da aprendizagem. Até porque uma criança que aprende a ler bem estará mais preparada para viver num mundo tecnológico. Como referiu ontem o Presidente da República, na 4.ª edição do Book 2.0 - O Futuro da Leitura, a leitura é “um antídoto contra a exclusão e a ignorância, o mais perigoso dos vírus em democracia” e que “uma nação que lê é mais poderosa e está mais bem preparada para os desafios do seu tempo”.
E isto leva-nos ao cerne de qualquer discussão séria sobre a Educação: os professores.
Profissão pela qual tenho um carinho especial, não só pelos bons professores que tive a sorte de ter ao longo da vida, bem como pelo facto da minha mãe ter sido professora primária.
Ponto prévio: não defendo qualquer regresso a um modelo educativo que pertence ao passado. Os alunos são outros, a sociedade é outra e os desafios são incomparavelmente diferentes. Mas, antigamente, o professor era reconhecido pela sociedade e existia uma ideia clara de que ensinar era uma responsabilidade de enorme importância social.
Não se trata também de idealizar o passado, mas sim de reconhecer que nenhuma transformação educativa será sustentável se não voltarmos a tornar a profissão docente socialmente valorizada e profissionalmente atrativa. E isso significa remuneração adequada, estabilidade, formação contínua de qualidade, condições de trabalho e tempo.
Como referiu Luigi Giussani, a educação é “evocar uma humanidade nova”, a que dou o sentido de que nada pode substituir o papel fulcral do professor, comunicando essa humanidade através da ação e da afeição junto dos alunos.
Por outro lado, há uma responsabilidade que não pertence exclusivamente à escola. As famílias também têm um papel que não pode continuar a ser secundarizado. A escola não pode ser chamada a resolver todos os problemas sociais, comportamentais e emocionais das crianças e dos jovens. Os pais têm de assumir a sua parte, reconhecendo aqui a importância de também terem melhores condições profissionais e pessoais que permitam tal disponibilidade.
É igualmente tempo de assumir de uma vez por todas que a Educação precisa de continuidade. Não pode recomeçar de cada vez que muda o Governo ou o ministro. Portugal precisa de um verdadeiro Pacto Educativo Nacional, com objetivos concretos, metas claras e compromissos capazes de sobreviver aos ciclos políticos. Não é necessário que todos os partidos concordem em tudo. Mas deveria ser possível chegar a consenso sobre o essencial: recuperar aprendizagens fundamentais, combater as desigualdades, valorizar os professores, reduzir a burocracia e preparar alunos e docentes para uma utilização crítica e ética da inteligência artificial.
E não precisamos inventar a roda. Há países que têm apresentado, de forma consistente, resultados positivos na avaliação do desempenho dos seus jovens. Não precisamos de copiar nenhum modelo, mas podemos analisar aquilo que outros estão a fazer melhor e perceber o que pode ser adaptado à realidade portuguesa.
Também em Portugal existem regiões que se destacam nos domínios analisados, das quais quero realçar a Região Autónoma da Madeira.
No Relatório Nacional PISA 2025, a nossa Região evidencia-se em Ciências e Matemática, estando também bem posicionada na Leitura. No domínio inovador da aprendizagem no mundo digital, os dados por regiões de Portugal (NUTS II) revelam que os nossos alunos obtiveram os melhores resultados médios.
Em suma, há razões suficientes para olhar o futuro com esperança.
Esperança numa escola que ajude a preparar os jovens para enfrentar o futuro, com conhecimento suficiente para compreender as respostas, pensamento crítico para duvidar, criatividade para imaginar, coragem para decidir e liberdade suficiente para construir o seu próprio caminho.