É chinês o grupo que disputa o Casino da Madeira com o Grupo Pestana?
‘Grupo Pestana e Cirsa na ‘corrida’ para explorar Casino da Madeira’. A notícia publicada pelo DIÁRIO, nesta segunda-feira, deu conta de duas candidaturas à exploração dos jogos de fortuna ou azar na zona de jogo do Funchal. De um lado, a ITI – Sociedade de Investimentos Turísticos da Ilha da Madeira, do Grupo Pestana. Do outro, a Sociedade Figueira Praia, operadora do Casino da Figueira da Foz, ligada à Cirsa.
A publicação suscitou comentários, incluindo na página do DIÁRIO no Facebook. Entre manifestações de preferência pelo actual concessionário e críticas ao funcionamento do casino, um leitor escreveu que a sociedade da Figueira da Foz, “pelo que parece é um grupo chinês”, acrescentando que “qualquer dia (são) só estrangeiros a mandar cá”.
Mas, será chinês o grupo que concorre com o Grupo Pestana à exploração do Casino da Madeira?
Para verificar a afirmação, consultámos informação empresarial da Cirsa, o prospecto da sua entrada em bolsa e notícias sobre a propriedade do grupo e as ligações dos seus investidores à China.
Comecemos pela sociedade que apresentou a candidatura. Em Julho deste ano, a Cirsa anunciou a aquisição de uma participação maioritária na Sociedade Figueira Praia, proprietária e operadora do Casino da Figueira. É essa operação que explica a associação entre o nome da candidata e o grupo referido no título da notícia.
A Cirsa nasceu em Terrassa, na Catalunha, em 1978. No entanto, a origem espanhola não basta para responder à pergunta. Uma empresa pode manter a sede e a nacionalidade jurídica num país e ser controlada por investidores de outro.
Foi o que aconteceu com este grupo de jogo. Em 2018, foi adquirido por fundos geridos pela Blackstone, uma gestora norte-americana de investimentos. A operação concretizou-se em 3 de Julho desse ano, conforme consta do relatório anual da Cirsa.
O prospecto da entrada em bolsa, datado de Julho de 2025, permite seguir o controlo para além da sociedade espanhola. Identifica a LHMC Midco, do Luxemburgo, como accionista e explica que é controlada indirectamente através de fundos e veículos geridos ou assessorados pela Blackstone. O mesmo documento identifica Stephen Schwarzman como controlador final da Blackstone e, indirectamente, da Cirsa, pelo poder que exerce sobre a nomeação e destituição de administradores.
Mas haverá uma ligação chinesa por detrás da Blackstone?
Essa ligação existiu no capital da própria gestora. O fundo soberano China Investment Corporation, conhecido pela sigla CIC, entrou em 2007 e vendeu integralmente a participação que detinha. Em 22 de Fevereiro de 2018, já não possuía esses títulos, segundo informação da Blackstone divulgada pela Reuters. A saída ocorreu, portanto, antes da aquisição da Cirsa. A relação financeira prosseguiu, contudo, através da gestão de investimentos do CIC pela Blackstone.
É necessário distinguir ser accionista de uma gestora de ter dinheiro aplicado num fundo por ela gerido. Um investidor pode participar nos resultados de um fundo sem controlar a entidade que decide onde investir. Além disso, a presença num fundo não demonstra participação em todos os outros fundos da mesma gestora.
Em Abril de 2025, a Reuters voltou a referir a Blackstone entre as gestoras que tinham recebido investimento de entidades apoiadas pelo Estado chinês. Essa informação não identifica, porém, a Cirsa como destino desses capitais. Na pesquisa efectuada, não encontrámos elementos que permitam confirmar ou quantificar uma participação chinesa nos fundos que detêm o grupo de jogo.
Há ainda uma alteração anunciada recentemente. Em 2 de Setembro, a Cirsa comunicou um acordo para ser absorvida pela italiana Lottomatica. A conclusão está prevista para o segundo trimestre de 2027 e depende de aprovações. Nesse comunicado, a accionista maioritária continua a ser identificada como controlada pelos veículos da Blackstone.
Também na Lottomatica não encontrámos indícios de controlo chinês. A estrutura accionista publicada pela empresa, actualizada em 9 de Setembro, identifica as gestoras norte-americanas FMR e Capital Research como principais accionistas, sem revelar qualquer participação chinesa predominante.
Os elementos consultados identificam, assim, um grupo espanhol sob controlo de fundos geridos pela norte-americana Blackstone. A eventual existência de investidores chineses nesses fundos, que não foi possível comprovar, não permite classificá-lo como chinês. Pelo exposto, a afirmação de que a sociedade concorrente à exploração do Casino da Madeira pertence a um grupo chinês é avaliada como falsa.