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Explicador Madeira

O que é o património financeiro das famílias?

Nos últimos 20 anos, a situação financeira das famílias portuguesas alterou-se significativamente. No seu conjunto, as famílias passaram a deter mais aplicações financeiras em relação às suas dívidas.

Mas, sabia que os depósitos mantiveram-se como a principal forma de aplicação das poupanças e outras componentes ganharam importância, como as participações no capital de empresas e os fundos de investimento.

A mudança verificou-se não apenas no valor acumulado dos activos financeiros, mas também na forma como estes estão distribuídos. Actualmente, uma parcela maior da riqueza financeira das famílias está aplicada em instrumentos cujo valor depende da evolução dos mercados financeiros. Ao contrário dos depósitos, estes activos podem valorizar-se ou desvalorizar-se ao longo do tempo.

Em 2025, a diferença entre os activos financeiros das famílias e os seus passivos, constituídos sobretudo por empréstimos, aproximou-se dos 402 mil milhões de euros. Este valor corresponde ao património financeiro líquido das famílias.

O que é o património financeiro das famílias?

O património financeiro líquido corresponde à diferença entre os activos financeiros que as famílias possuem e os passivos financeiros que têm.

Nesta conta entram activos como numerário, depósitos, títulos de dívida, participações no capital de empresas, unidades de participação em fundos de investimento, seguros e direitos sobre fundos de pensões. Do lado das responsabilidades estão sobretudo os empréstimos, em particular o crédito à habitação e ao consumo.

Esta análise do Banco de Portugal considera apenas a componente financeira do património das famílias. Ficam de fora os activos não financeiros, como a habitação própria, outros imóveis ou terrenos.

Mais riqueza financeira em duas décadas

A evolução do património financeiro líquido depende de dois factores principais. Por um lado, resulta das decisões das famílias sobre a forma como utilizam as suas poupanças, seja através de aplicações financeiras, seja através do recurso ao crédito. Por outro, depende da valorização ou desvalorização dos activos financeiros que já detêm.

Entre 2005 e 2025, o património financeiro líquido das famílias portuguesas aumentou de 172 mil milhões de euros para 402 mil milhões de euros. Em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), passou de 108% para 131%.

O valor mais elevado deste indicador foi atingido em 2021, quando o património financeiro líquido chegou a representar 146% do PIB. Esse período coincidiu com a pandemia de Covid-19. Nos anos seguintes, com a recuperação da economia, este rácio diminuiu.

A evolução das últimas duas décadas resulta de dois movimentos distintos: os activos financeiros mantiveram-se em níveis elevados, atingindo 194% do PIB em 2025, enquanto os passivos financeiros reduziram o seu peso, passando de 84% para 63% do PIB.

A dívida passou a pesar menos na economia

A melhoria da posição financeira das famílias está muito associada à redução do peso da dívida na economia. Em 2005, os empréstimos às famílias representavam cerca de 80% do PIB e atingiram um máximo de 91% em 2009.

A partir desse ano, iniciou-se uma trajectória de descida, interrompida apenas em 2020, no contexto da pandemia, e em 2025, quando se registou um ligeiro aumento face ao ano anterior. Ainda assim, nesse ano, os empréstimos representavam cerca de 53% do PIB.

Esta redução não significa que as famílias tenham deixado de recorrer ao crédito. A diferença está na relação entre esse montante e a dimensão da economia: o PIB nominal cresceu mais rapidamente do que o crédito concedido às famílias, reduzindo assim o peso relativo da dívida.

Os depósitos continuam a dominar as poupanças

Apesar da diversificação das aplicações financeiras, os depósitos continuam a ocupar um lugar central na carteira das famílias portuguesas.

Em 2025, o numerário e os depósitos representavam 44% do total dos activos financeiros das famílias, acima dos 39% registados em 2005.

A maior parte destes depósitos continuava concentrada nos bancos. Em 2025, representavam 77% do total, comparando com cerca de 81% em 2005. As aplicações junto das administrações públicas, onde se incluem os certificados de aforro e os certificados do Tesouro, correspondiam a cerca de 18%, enquanto os depósitos no exterior representavam os restantes 4%.

As taxas de juro mudaram o comportamento das famílias

As taxas de juro tiveram impacto tanto nas aplicações financeiras como no recurso ao crédito.

As famílias portuguesas tendem a privilegiar aplicações de menor risco, como os depósitos bancários e os certificados de aforro, cuja remuneração depende da evolução das taxas de juro. Nos depósitos, a taxa é definida no acordo entre o cliente e o banco. Nos certificados de aforro, depende da fórmula estabelecida para cada série, estando as séries mais recentes associadas à evolução da Euribor a três meses.

Uma carteira financeira mais diversificada

Embora os depósitos continuem a ser a principal aplicação financeira, a composição dos activos das famílias portuguesas tornou-se mais diversificada.

As participações no capital de empresas e as unidades de participação em fundos de investimento passaram de cerca de 30% do total dos activos financeiros em 2005 para quase 40% em 2025. Em percentagem do PIB, aumentaram de 60% para 77%.

Esta evolução reflecte, por um lado, o crescimento das participações detidas pelas famílias em empresas não cotadas em bolsa, incluindo empresas familiares. Por outro, mostra a afirmação dos fundos de investimento como uma das principais formas de participação das famílias nos mercados de capitais.