Um bloco de gelo que se soltou de um glaciar e caiu de várias milhares de metros de altitude para um rio pode estar na origem da catástrofe ocorrida no Nepal e no Tibete.
A tese sobre a catástrofe que causou centenas de mortos e milhares de desaparecidos, num balanço em permanente mudança, ganha forma entre os cientistas.
Eis como a catástrofe se terá produzido, num trabalho da agência francesa AFP:
Colapso de um glaciar
O colapso de um glaciar nos Himalaias nepaleses, próximo da fronteira com o Tibete chinês, parece estar na origem da catástrofe.
"Um enorme bloco de gelo soltou-se de um glaciar a cerca de 5.200 metros de altitude" e caiu num vale, de acordo com o cientista Simon Cox, do instituto neozelandês GNS Science.
Nessa altura, "transformou-se numa massa descontrolada de detritos (...) arrastando rochas, sedimentos, árvores e tudo o que se encontrava na sua trajetória, antes de avançar vertiginosamente pelo desfiladeiro", explicou à AFP.
Uma imensa vaga castanha atingiu primeiro um posto fronteiriço, como mostram as imagens de videovigilância do lado chinês, nas quais se pode ver um imponente edifício e várias pessoas a tentar fugir a ser engolidos em poucos segundos.
A vaga continuou o seu curso rio abaixo, no Nepal, arrastando habitações e os ocupantes.
Actividade sísmica
O colapso do glaciar foi de uma violência tal que foi registado por erro como um evento sísmico de magnitude 5,2, ocorrido às 08:37 locais (03:52 em Lisboa).
Contudo, após análises, o Instituto de Estudos Geológicos dos Estados Unidos (USGS) determinou "que o evento sísmico foi na realidade um colapso glaciar acompanhado de um fluxo de detritos, e que não ocorreu qualquer sismo".
A avaliação da dimensão do colapso levará tempo, disse Cox, mas poderá situar-se entre "meio milhão de metros cúbicos e várias dezenas de milhões de metros cúbicos".
Esvaziamento de lago glaciar
As primeiras hipóteses privilegiaram a pista de um esvaziamento súbito de lago glaciar, conhecido pela sigla GLOF (de 'Glacial Lake Outburst Flood'), cuja frequência e risco aumentam com as alterações climáticas.
Um GLOF ocorre quando uma frágil barreira natural de detritos que retém um lago formado pelo degelo de um glaciar cede subitamente, libertando as águas que continha.
Segundo vários especialistas, um GLOF poderá ter contribuído para desencadear a catástrofe.
"A única razão pela qual uma grande quantidade de água pode ter descido subitamente pelo vale é ter sido libertada de uma só vez", considerou Adrian McCallum, glaciólogo na Universidade da Sunshine Coast, na Austrália.
"A água circula no interior dos glaciares e sob os glaciares", explicou.
O bloco de gelo poderá também ter formado brevemente uma barreira natural no rio, retendo água a montante antes de ceder e de a libertar de uma só vez.
O nível dos rios está elevado nesta época devido ao degelo de verão dos glaciares a montante e às chuvas da monção.
O volume da enxurrada foi depois amplificado pela lama e pelos detritos arrastados ao longo de vários quilómetros à medida que progredia, acrescentou Cox.
Alertas
As autoridades nepalesas, informadas das primeiras enxurradas por volta das 09:00 locais, alertaram imediatamente as populações que vivem ao longo do rio, pedindo-lhes para "permanecerem em zonas seguras".
É difícil saber quantas pessoas receberam o alerta e de quanto tempo dispuseram para se colocar a salvo.
Ainda assim, os residentes que recebem os alertas dispõem de poucas soluções, segundo Hatim Sharif, hidrologista na Universidade do Texas em San Antonio.
"Correr não servirá de nada", afirmou, nem "tentar fugir" de carro, pois a lama e a água a avançar a grande velocidade formam uma combinação mortal semelhante a "cimento líquido".
Para o especialista, a única solução é refugiar-se numa colina com pelo menos seis metros de altura.
Alterações climáticas
Embora seja difícil atribuir por agora uma potencial ligação entre as alterações climáticas e esta catástrofe, o aquecimento do planeta é uma pressão permanente para os antigos rios de gelo, explicam os especialistas.
O recuo dos glaciares aumenta os riscos de catástrofes, mas ameaça igualmente os recursos hídricos dos quais dependem as populações situadas rio abaixo.
"A melhor forma de reduzir os riscos seria diminuir as nossas emissões de gases com efeito de estufa para limitar o aquecimento", defendeu a glacióloga Lauren Vargo, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia.