Mais de 82 mil crianças, adolescentes e cuidadores com apoio psicossocial do Unicef
Mais de 82 mil crianças, adolescentes e cuidadores receberam apoio psicossocial do Unicef no norte de Moçambique até maio, numa resposta marcada pelo impacto da violência em Cabo Delgado, província afetada por uma insurgência desde 2017.
Segundo o mais recente relatório humanitário do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), 82.279 crianças, adolescentes e cuidadores tiveram acesso em cinco meses a serviços comunitários de saúde mental e apoio psicossocial no norte de Moçambique, enquanto 38.848 crianças beneficiaram de educação formal ou não formal através de programas apoiados por aquela agência.
Aponta também que a insegurança permaneceu em maio em várias zonas do norte do país e passou a afetar cada vez mais áreas do sul de Cabo Delgado, incluindo os distritos de Ancuabe, Chiúre, Montepuez e Namuno, onde grupos armados continuaram a atacar aldeias, incendiar habitações e destruir infraestruturas públicas.
De acordo com o Unicef, com dados até final de maio, os grupos armados não estatais continuaram a expandir a sua presença para sul, ao mesmo tempo que mantinham atividade em distritos como Macomia, Nangade e Mocímboa da Praia, apesar da presença de forças moçambicanas e ruandesas na província. Assinala igualmente ataques a posições militares, assassinatos de civis e ameaças em corredores rodoviários e costeiros, demonstrando a capacidade operacional daqueles grupos.
Alerta igualmente para preocupações crescentes de proteção, riscos de separação familiar, violência baseada no género, perda de documentação civil e pressão acrescida sobre os serviços de abrigo, água, saneamento e saúde nas comunidades que acolhem deslocados.
A crise humanitária decorre da insurgência que afeta Cabo Delgado, província rica em gás, desde outubro de 2017. Segundo dados divulgados anteriormente pelo Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), foram registados 2.408 eventos violentos desde o início do conflito, dos quais 2.224 envolvendo elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM), provocando mais de 6.600 mortos.
Um relatório apresentado recentemente ao Conselho de Segurança da ONU concluiu que o grupo armado aumentou para entre 400 e 500 combatentes, intensificou o recrutamento e apresenta sinais de expansão para os distritos do sul de Cabo Delgado, apesar da pressão militar no terreno.
O impacto sobre as crianças continua a constituir uma das principais preocupações das organizações internacionais, com outro relatório das Nações Unidas sobre Crianças e Conflitos Armados, deste mês, a confirmar 552 violações graves contra 355 crianças em Moçambique durante 2025, sobretudo em Cabo Delgado, incluindo 175 situações de recrutamento e utilização de crianças por grupos armados, 326 casos de rapto, 23 situações de violência sexual e ataques contra 12 escolas e um hospital.
A resposta do Unicef tem combinado apoio psicológico, proteção infantil e recuperação do acesso à educação, tendo chegado, em Cabo Delgado, só em maio, a 21.659 crianças e adolescentes através de serviços comunitários de saúde mental e psicossocial, destinados a reforçar o seu "bem-estar, resiliência e sentido de segurança".
Criou ainda clubes de paz no distrito de Palma, envolvendo adolescentes em atividades de promoção da convivência comunitária e de resolução pacífica de conflitos, e concluiu 17 salas de aula resilientes em Chiúre e Ancuabe, para 1.700 alunos.
Em termos nacionais, o Unicef contabilizou até maio apoio psicossocial e de saúde mental para 84.909 crianças, adolescentes e cuidadores em Moçambique, enquanto 113.347 crianças tiveram acesso a educação formal ou não formal através dos programas apoiados pela agência.
O relatório indica que um milhão de crianças necessitam atualmente de assistência humanitária no país, num universo de 1,8 milhões de pessoas em situação de necessidade, contabilizando Moçambique mais de 506 mil deslocados internos relacionados com o conflito e 715 mil regressados às zonas de origem.